segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Os Subterrâneos



Terminei o Os Subterrâneos, de Kerouac. Li em algum lugar que a prosa dele se parece muito com o "fluxo de consciência", que a Wikipedia diz que "procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem" e realmente, o estilo corrido e caótico tem muito a ver.
Considerando que ele vai narrando os acontecimentos como numa daquelas malucas e divertidas conversas de bar, apresentando fatos à medida em que eles lhe ocorrem (pelo menos, tive essa impressão) ao mesmo tempo em que descreve os próprios grilos, opiniões, valores, expectativas, e começando novos assuntos e emendando novos dilemas.
O principal do livro é a relação (começo, confusões e fim) de Leo Percepied, alter ego de Kerouac, com Mardou Fox, personagem baseada em uma namorada do autor e em volta disso, um sobe e desce com muita paranoia, ciúmes, desprezo, um lirismo difícil, um mimimi, a frequência pelo underground de São Francisco, bebedeiras e mais bebedeiras.
Certamente, é um livro autobiográfico com muito mais franqueza do que se pode encontrar em clássicos, contém um texto muito mais vivo, esquisito, não teleológico - não dá para antecipar o que vem pela frente como em muitos outros trabalhos, onde o desenrolar da trama entrega os acontecimentos futuros.
Mas se Leo é bastante sincero e analítico quando trata dos seus sonhos, do seu quase problema em namorar uma negra, nos seus ciúmes voltados ao que supõe estar acontecendo entre Yuri e Mardou, também deixa muita coisa subentendida, como o uso de drogas, relações homossexuais.
Há, ao lado da apologia pela vida desregrada e da admiração pelos desregrados intelectuais e artistas, a consciência muito clara às vezes, de que o fim está próximo. Um anseio por mudança, mas que é logo vencido pela dinâmica dos outros em derredor, pela primeira rodada de cerveja que imediatamente pede a segunda que pede a terceira e assim, madrugada adentro.
É o primeiro livro que leio do Kerouac e o recomendo a quem está procurando um modo diferente de literatura, um em que nada está ali tão claro que se possa prever, porque é o que o livro oferece, um outro jeito de escrever. Amontoando fatos, pensamentos, como que à esmo, Kerouac monta um depoimento, digressivo, agressivo, muito sincero às vezes, nem tanto noutras, mas ainda assim com mais dessa loucura que é a vida do que muitos outros títulos que já li, mais nu.




Nenhum comentário:

Postar um comentário