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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os Dentes do Cavalo Dado



Carlos estava puto da vida. Com todo mundo, com tudo, todos, qualquer um, com seus pais. Principalmente com seus pais e mais principalmente ainda, com seu pai. Aos 14 anos a máquina da revolta ainda está nova, então, funciona melhor do que devia. Trancado no quarto, pensava no que ia fazer, sentia vontade de fugir, de brigar, de bater em alguém, de se jogar na frente de um carro, de cima de um prédio.

Ele não entendia como é que não o entendiam. E aquilo que o pai tinha falado? Que história era aquela de tu não está em condições de escolher presente, não! O que aquilo queria dizer? Só porque era pobre, não podia ter gosto? Não podia escolher o que ia usar? Tinha que aceitar o que lhe dessem e ainda agradecer? Não! Ele não. Carlos andaria nu, mas não com o que não queria usar.

O problema nem era Carlos ser orgulhoso ou algo do tipo, como pensou e gritou o pai, o problema era totalmente outro. A tia de Carlos dava coisas velhas e acabadas pra ele, como se fossem presentes. Se Carlos fosse orgulhoso, não aceitava, mas ele aceitava e até ficava muito agradecido. O problema é que gratidão não era suficiente, a tia de Carlos lhe dava lixo e depois cobrava em troca todo o tipo de favor e, pior ainda, se mostrava ressentida quando ele não queria capinar o seu quintal, pintar sua casa ou arriscar a própria vida pra limpar o poço ou lavar a caixa dágua, afinal, ela dava de um tudo pro menino.

Era uma desgraçada mesmo. Se Carlos não queria fazer de graça, ou a preço de roupas, brinquedos e outros itens, todos velhos, o que qualquer outro cobraria pra fazer, a sem vergonha corria ao ouvido da mãe ou do pai dele e com as artimanhas de um vitimismo aprimorado ao longo de toda uma vida, convencia a irmã ou o cunhado. Sobrava pra quem? CARLOS!

Mas Carlos não seria mais besta, tinha entendido como tudo funcionava e por isso, decidiu mudar e dizer não, nunca, meta na bunda essa porra. Não ia mais aceitar nem bolacha com manteiga da tia, porque, sabia, não era de graça, nada era de graça. Se a tia lhe dava um café num dia, no outro, estava praticamente obrigando Carlos a mudar um guarda roupa de lugar. Se o chamasse para almoçar, era certeza, ele acabar tendo que lavar o carro.

Fazia um tempo que Carlos estava percebendo isso, percebendo e se revoltando. Falava pra mãe, mas ela só sabia dizer que todo mundo tem mesmo que ajudar a família. Falava pro pai, mas esse era ainda pior, mandava ele calar a boca e deixar de ser preguiçoso. Falou pros dois que a tia dava roupa velha e queria que ele fosse seu empregado, mas os dois disseram, como se tivessem combinado, deixe de ser mal agradecido. Não tinha com quem contar, tinha que dar um jeito por si.

Carlos não era preguiçoso, ajudava em casa, lavava louça, estendia roupa, passava pano na casa. Ajudava o pai também, trocar a caixa dágua, telhado e por aí vai. O foda era a obrigação. Pior ainda, a pessoa cobrar como se ele realmente estivesse devendo. E Carlos nunca podia dizer agora não, amanhã, depois eu ajudo. Tinha que ser na hora que a tia pedia, se ele falasse que estava ocupado, que só podia ir depois, a quenga corria pra mãe dele.

Carlos estava cansado disso. Primeiro, tentou conversar. Não deu certo. Ou fazia o favor na hora que a tia pedia, ou dava uma confusão enorme na família. Depois, começou a xingar, as brigas aumentaram e ele sempre era o errado, porque a tia isso, a tia aquilo, uma santa! Como era inteligente e descobriu o que podia fazer pra mudar a situação.

Naquele dia, a tia lhe chamou pra lhe dar um negócio. Ele disse de imediato que não ia, que não queria, mas a tia insistiu. Esticou a cabeça pela janela (eram vizinhos) e gritou: Carlim, vem cá, tenho um negócio pra te dar. A mãe de Carlos, ouvindo a gritaria, perguntou pro filho, não vai ver não o que a tua tia quer te dar? Carlos disse que não ia. Na verdade, disse nem fudendo. A mãe se irritou e mandou ele deixar de ser mal educado e ir ver o que era. Ele foi. Bufando de raiva, mas foi.

Era um tênis. Mas não um tênis velho, usado até o limite por algum dos seus primos, prontinho para ir pro lixo. Era um tênis novo, recém tirado da caixa, ainda com aquele cheirinho de tênis novo. Carlos pensou na mesma hora, a puta dessa velha é muito esperta...

Carlos estava realmente precisando de um tênis, já estava indo pra escola de havaianas velhas há umas duas semanas. Não aguentava mais a zoação. Ficava todo mundo lhe chamando de pé sujo, mendigo e coisas do tipo, era foda. Por outro lado, não aguentava mais ser escravo da tia. Carai, o tênis tava estralando de novo.

Pegou o tênis nas mãos, a tia mandou que experimentasse, era dele, afinal. Carlos se imaginou na escola com aquele tênis de gente rica, um Adidas. Puta merda, ia ser foda. Quando deixou de sonhar, olhou para ela, sério como nunca antes, e disse, fulminante: enfia na bunda! Largou o tênis no chão e foi embora pra casa, já sabendo que ia ter confusão, mas decidido a não fazer mais nada pra tia.



                                           
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sábado, 10 de janeiro de 2015

Os Pés São O Espelho Da Alma






Tenho um amigo que largou da noiva porque ela tinha pés hediondos. Não sei o que isso quer dizer, não sei como um pé pode ser hediondo, mas foi o que ele disse. E mais: os pés são o espelho da alma, uma mulher que não cuida dos pés não cuida de si mesma. E ainda um pouco mais, a beleza da mulher está nos pés.

Depois que ele me falou sobre os pés da noiva, comecei a reparar e para mim, eram OK. Não sou especialista, mas acho que se aqueles pés não poderiam servir de modelos para propagandas de sandálias, com certeza, jamais constariam em manuais médicos de patologias dos pés.

Ele disse que tentou se acostumar com aqueles pés, mas não conseguiu. Olhava, fazia força, mas nada. Então, começou a investir em indiretas para ver se de alguma forma fazia com que ela prestasse mais atenção aos pés.

Primeiro, vivia dizendo como gostava de mulher com pés impecáveis, que uma mulher com belos pés era tudo o que queria na vida. Ela ou fingia que não ouvia, ou não ouvia mesmo. Então ele mudou de estratégia, passou a elogiar pés de outras, o que era um pouco arriscado.

Quando via um belo par de pés na TV, dizia logo, olha, que pé! QUE PÉ! A noiva continuava sem se importar. Ele seguia firme, cada vez mais ousado. Teve uma vez que ele disse eu lamberia um pé assim! E ela de imediato perguntou que putaria é essa? E é claro que teve confusão.

Não era pelo elogio aos pés. A noiva não se importava se ele achava os pés de fulana ou de beltrana da TV bonitos, muito melhor, aliás, que ficar elogiando peito e bunda, ela pensava. Mas tudo tem limite, o que era aquilo de lamber? Que descaramento era aquele? Pelo que ela sabia, um noivo não pode andar dizendo por aí que vai lamber seja lá que parte for de outra que não a sua própria noiva.

Depois de um tempo, aumentando o desconforto dele em conviver com aqueles pés, ele passou para uma abordagem mais direta, perguntava amor, por que tu não cuida direito dos teus pés? Ela respondia com estão sujos, por acaso? Não estavam, o que para ela era suficiente. Para ele, não era.

Como nem uma nem outra abordagem surtiram efeito, chegou o dia em que ele não suportava mais os pés da noiva, em especial, a forma como aqueles trambolhos se esfregavam em suas canelas à noite. Não suportando mais os pés, rompeu com a dona deles.

Foi um problemão...

Para eles, para as famílias e amigos. Pra quem não sabe, uma relação de muito tempo não se mantém sozinha, apenas pela vontade do casal, há um conjunto de vontades externas envolvidas nessa manutenção. E quando uma relação de muito tempo termina, caso termine, não termina sozinha também, leva junto uma série de outras relações colaterais, surgidas e mantidas em torno dela.

Assim, que o fim de um noivado não significa apenas o fim de um noivado, mas a quebra de todos os acordos não escritos firmados entre as famílias dos noivos, dos seus amigos e ainda de outros envolvidos, de alguma forma conhecidos do casal.

Mas ele não estava nem aí para os transtornos causados a terceiros, não queria mais casar com a dona daqueles pés e ponto. Claro que tentaram argumentar, mas qual é o argumento que poderia ter algum efeito se ele sempre mentia sobre o motivo? Um remédio só cura quem o toma e uma bala só mata a quem acerta.

No fim, tudo acabou dando certo. Ela achou alguém que não se importava com os seus pés e ele encontrou os pés perfeitos, embora a dona deles fosse uma megera insuportável. No amor é assim, cada um, pelo que gosta de uma pessoa, suporta o resto dela.





                                      
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sábado, 8 de novembro de 2014

Mãozinha







 

Ele estava sentado, sozinho, em um dos bancos do pátio da escola, vendo acontecer na nova escola exatamente o que acontecia na antiga. Hora do intervalo, os outros meninos e meninas, de 11 a 17 anos, se entretiam com suas coisas, uns jogavam bola, outros mexiam em seus celulares, ou só conversavam e ele ali, distante de todo mundo.

Era já o segundo mês na nova escola, ainda não tinha feito um amigo e pensava sobre os comentários que os outros alunos já deviam estar fazendo, a fala deles chamando-o de mãozinha com um misto de pena e repulsa. Enquanto deixava a lata de refrigerante e pega a saltenha do banco com a mão esquerda, pensava no que o professor, aquele idiota, tinha dito.

Este professor passou um trabalho em grupo, mas como ninguém queria o Carlos Eduardo no seu grupo, o professor quis obrigar os alunos a aceitarem o menino, mas aí, um deles praticamente gritou, ah, não, logo o mãozinha? A sala inteira riu. O professor, querendo dar lição de moral, falou, a gente tem que aceitar as pessoas como elas são, com suas aptidões e (frisando bem as palavras) suas dificuldades… Foi humilhante.

Mais até do que a vez em que outro professor teve que mandar um dos alunos deixar de brincadeira e desocupar a cadeira especial do Carlos Eduardo. Era uma cadeira para canhoto, só isso, mas a palavra especial dita com muito cuidado fez com que Carlos Eduardo se sentisse um excluído. O menino tinha sentado lá só de sacanagem, Carlos Eduardo fingiu que não viu e foi se sentar numa cadeira para destro que, aliás, não sentia dificuldade alguma em usar. Mas o professor tinha que fazer aquilo...

Temos que aceitar as pessoas… Carlos Eduardo, com seus 13 anos, dessa vez, diferente da vez da cadeira, não se segurou, saiu correndo e foi chorar no banheiro nem aí para o risco de também o tratarem por o chorão, filhinho da mamãe e por aí vai. Acabou fazendo o trabalho sozinho e desistindo de tentar fazer alguma amizade ali. Não sabia por que faziam tanto caso por ele não ter a mão direita perfeita, mas já tinha vivido o suficiente para saber que era assim que as coisas eram.

E então, enquanto começava a se conformar com a situação que era desconfortável, mas dava pra ir levando, cara de peixe, aluno do 9º ano, com 16 anos, acompanhado por sua turminha já bastante conhecida pela diretora da escola, chegou e exigiu: ei, mãozinha, me dá um real aí. Carlos Eduardo disse que não com um tímido movimento de cabeça, acrescentando, nem tenho. Cara de peixe insistiu, ei, só porque a senhorita é deficiente acha que eu vou aliviar? Não vou não. Amanhã, ou tu me dá esse real ou vou bater na tua cara.

No outro dia, mesma cena, praticamente mesmo diálogo, mas dessa vez, cara de peixe se adiantou, pegou a gola do Carlos Eduardo e disse: umbora, mãozinha. Carlos Eduardo foi rápido. E quem estava vendo a cena pode testemunhar as estética e eficiência daquele soco, desde o seu surgimento, com o fechamento da mão esquerda, passando pela parábola ascendente que desenhou, até o momento do impacto: Poft! Bem no meio da cara.

O circo estava armado. Todos já se acotovelavam formando um círculo em torno dos dois e alguns gritavam briga! briga! briga!. De um lado, cara de peixe, recuperado da pancada, aprumava os punhos e dizia, ah, é?, ah é?, dando uns passinhos esquisitos de um lado pra outro, como um boxeador. Do outro lado, Carlos Eduardo estava quieto, com medo, muito convicto de que ia levar uma surra, mas não ia correr. Estava cansado de correr.

Carlos Eduardo se ajeitou como pôde, não tinha prática em lutas. Se firmou e ergueu as mãos meio inseguro do que é que ia fazer, ia enfrentar, ia dar um jeito. Cara de peixe deu um empurrão nele, depois outro. Parece que existe um código mundial e nele está escrito que não se começa nenhuma briga sem o empurra empurra. Atendito o protocolo, cara de peixe partiu pra cima.

Carlos Eduardo, não porque quis ou tivesse planejado, mas porque alguma força maior (provavelmente originada na medula) mandou e ele não pôde senão obedecer, fechou os olhos e esperou a pancada chegar com os antebraços protegendo o rosto. Mas a pancada não chegou. Ele abriu os olhos e viu que uma menina segurava o cara de peixe. Ela gritou, vai bater num aleijado, pô? Carlos Eduardo, talvez ainda sob o comando daquela força, respondeu na hora: aleijado deve ser o teu pai, sua puta.

Os envolvidos foram pra diretoria. Cara de peixe, conhecido por ali, começou dizendo que o novato tinha começado. O novato estava preocupado se iam chamar a mãe dele ali ou se ia ser suspenso. Nem uma coisa nem outra aconteceu. A diretora mandou os dois voltar pra suas salas e disse, acompanhando a frase com um gesto muito expressivo: estou de olho nos senhores.

Na manhã seguinte, lá estava Carlos Eduardo, dessa vez sentado na arquibancada da quadra da escola, com seu refrigerante, seu salgado, sua autopiedade juvenil e também um pouquinho de medo daquele tal de cara de peixe, quando ouviu, ei cara de bunda… Pensou que não era com ele, não podia ser, mas então, um menino com a mesma idade dele se aproximou e repetiu, ei, cara de bunda… Sorrindo como um amigo antigo. Sabe jogar bola? Vamos jogar.

Carlos Eduardo foi. E teve que ficar no gol, porque ninguém mais queria. Sua performance como goleiro não foi das melhores, mas ele era esforçado, defendia com o corpo inteiro, se jogava na frente da bola como essa fosse a sua missão na terra, seu destino. E afinal, foi graças a sua dedicação que seu time, levando menos gols, ganhou, foi uma vitória suada, mas vitória é vitória. Ele comemorou. E a verdade é que não se importou muito quando o seu time perdeu a segunda partida, estava sentindo que dessa vez seria diferente.





domingo, 2 de novembro de 2014

Todo Morto Vira Santo - Pt. 02



4.
O velório foi simples, era o que dava pra pagar à vista, a família achou melhor não exagerar nos gastos, pra quê, né? Tereza e os filhos, em compensação, fizeram a última vontade de Hermínio. Pelo menos tentaram. Não puseram ele no caixão de camiseta, calça jeans e havaianas, nem tocaram pagode, mas pelo menos, atenderam a vontade dele de não ser enterrado de terno e gravata.

Ele não tinha deixado escrito em lugar algum, não tinha deixado testamento, mas era uma das brincadeiras mórbidas que costumava fazer, dizia que não queria mais colocar um terno na vida, bastava a vez que tinha vestido no casamento. Dizia que era solenidade demais, o morto já estava fodido mesmo, que diferença fazia a roupa que junto a ele se decomporia debaixo da terra?

O enterro aconteceu, o padre falou sobre o fim da vida e a vida eterna, a sua mensagem de paz e obstinação, cumpriu o dever do ofício: deprimiu um pouco a todos. Ninguém chorou, só o netinho de Hermínio, de 6 anos, apontou o dedo pro caixão e disse: Ei, veado! O avô não riu dessa vez. Ninguém riu, na verdade. E a mãe do menino lhe deu um puxão de cabelo e prometeu uma surra quando chegasse em casa, então, sim, ele chorou seu choro escandaloso.


5.
Naquela noite, Tereza não dormiu em casa, não dormiu, na verdade. A decisão dos filhos, que sabiam que ela precisava de apoio, foi lhe dar abrigo. Dorme lá em casa mãe, disse o mais velho. Ela agradeceu, relutando, disse que estava tudo bem, que queria ir pra casa, que lá tinha uma cama conhecida, que seria melhor, mas no fim, aceitou o convite. Era a primeira vez que passava a noite fora de casa em muito tempo.

Às duas da manhã, todos dormiam, Tereza não. Ela pensava na vida dali pra frente, e se sentia um pouco mal por se sentir um tanto aliviada, livre, finalmente livre. Ela sentia que não podia ter um sentimento desses, ao mesmo tempo, se desculpava considerando a teimosia do marido que não se cuidava, que não estava nem aí.

Virando na cama de um lado pra outro, sem achar uma posição confortável, ela ficava um tempo com o pensamento aí, entre se culpar e se desculpar, então, passava a pensar na realização dos desejos que andava tendo. Pensava nos jovens, nos romances que viveria, no tempo que poderia aproveitar. E então, voltava a sentir culpa, pensava que não merecia a liberdade que agora teria, merecia sim, ela consertava, mas não daquele jeito, não precisava ser daquele jeito. Era melhor ter brigado, xingado, agredido...

Aí, pensava de novo, na ausência do marido, sentia que podia voar agora que não tinha mais aquele peso todo às costas. E então, de novo, se deixava tomar por um remorso, como ele ainda estivesse ali e ela não pudesse fazer o que queria fazer, como fosse injusto ter desejos. Não era, ela insistia. E lá começava com os sonhos de solteira. Agora tinha a casa só para si, ia redecorá-la inteira, ia colocar cortinhas, abajours, mesinhas e tudo mais que desse vontade. Ia pintar também, tinha uma cor que adorava mas que Hermínio não gostava.

A vida seria outra. Mal podia esperar.


6.
De pensamento em pensamento, Tereza viu amanhecer o dia pela janela do quarto, desde aquele azul inconfundível da madrugada, até o comecinho do dia, quando o sol está surgindo, ainda muito fraco, quase uma daquelas luminárias circulares pendurada no céu sob o horizonte.

Sem perder mais tempo, ergueu, e demorou por ali só o tempo suficiente para escrever um pequeno bilhete agradecendo a hospitalidade do filho e avisando que estava indo pra casa, também se desculpava por sair assim. Mas era preciso. Era preciso. A vontade bateu nela de tal modo que Tereza não podia resistir, estava animadíssima com a ideia de ter a casa só pra si e a sensação de ter a vida de volta, tanto que apesar da noite mal dormida, ao chegar em casa, não estava com um pingo de sono.

Tomou um banho, trocou a roupa e começou a arrumar a casa, a ir tirando os resquícios do marido dali o mais rápido possível. Varreu, lavou, esfregou, tirou cervejas do freezer, muitas cervejas no freezer, aquele bêbado desgraçado não era tão bom assim para estocar alimentos.

Pegou a roupa suja juntou com a limpa, que tirou do guarda roupas do casal, colocou tudo num bolo só dentro de um saco de lixo. Creme pra barbear, cueca suja, latas de cerveja vazias, algumas bitucas de cigarro. A limpeza avançava e cada vez mais a presença do porco ia desaparecendo e o chiqueiro voltava a ser uma casa.

Tereza não parava, era preciso limpar mais, apagar mais. Havia ainda muitos resquícios. Saco plástico no controle remoto. Ideia de quem? Dele. Imã de geladeira com formato de botija e número da distribuidora. Coisa de quem? Dele.


7.
Duas semanas se passaram. Tereza chegou em casa, tomou um banho e foi para a cozinha, fez um macarrão com um molho qualquer e gritou: Ô porcão, eu não vou levar o teu… E esperando a resposta, que de modo algum viria, se deu conta de que o porcão não estava mais ali. Nunca mais estaria. E esse nunca mais apareceu de modo categórico, definitivo.

E a imagem dele largado no sofá com uma lata de cerveja em cima da barriga inflada, apático, causou a pergunta: como foi que aconteceu? Tereza ficou um tempo com o pensamento na cabeça, não por vontade, ela o repelia e ele, como um daqueles cachorros de rua, famintos, voltava, abanava o rabo, latia.

Como aconteceu? Como aquele Hermínio jovem, chamado de sansão, pela cabeleira e pelo porte, tinha se transformado num gordo careca preguiçoso filho da puta? Tereza não sabia. Havia perdido algo pelo caminho? O que seria? Aquela noite, não dormiu bem, virou-se para um lado e outro da cama. Andou pela casa, bebeu uns goles de vinho (aquilo sim era bebida pra ter em casa). Foi tomar banho, talvez um banho lavasse aquilo da sua cabeça.

Terminou o banho e com a questão ainda ali, diante de si, latindo furiosa. Fez o que há muito tempo não fazia, deu uma boa olhada em si mesma no espelho do banheiro e reparando em como estava, as rugas, o cabelo, o cansaço dos olhos, os lábios ressecados, pensando em tudo o que tinha passado e em como era, reformulou a pergunta: O que a vida fez com a gente, Hermínio? E pensando em tudo o que aconteceu naquele casamento, refez mais uma vez a questão: O que fizemos a nós mesmos?

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Rolo




Era um dilema. Nada menos que um dilema, o que se passava dentro da cabeça dele. Com um pouco de atenção e qualquer um perceberia que ele não estava no seu normal. Não era nada de mais, alguma palidez no rosto, um pouco de impaciência pelas pernas que balançavam, nos dedos que de vez em quando esqueciam de preencher a tabela do excel para tamborilar na mesa e aquela única gota de suor frio e nervoso descendo pela lateral da testa, só o suficiente pra demonstrar que nem tudo estava bem.

Sentado na sua cadeira, fazendo uma força horrível pra manter o disfarce, a cara mais normal possível, ele que tinha resolvido esperar passar, esperava, era um mal passageiro, em breve ia passar. Daqui a pouco passa, ele pensava, pedia, rogava. Mas não passava, não passou, piorou, e então ele decidiu deixar de lado aquela frescura de não usar o banheiro do trabalho. Ou isso ou teria que trocar as calças.

Ele respirou fundo e levantou, foi pro banheiro. Não tinha papel, puta merda. Saiu do banheiro decidido a voltar pra sala e resistir, mas a determinação foi muito menos intensa do que os repuxos dos intestinos, então, passou direto pela sala e foi na copa. Perguntou se tinha papel e ouviu um pra que? que, naquele momento, lhe pareceu muito indiscreto, era a lupa da situação. Ele respondeu com um risinho nervoso acompanhado por um movimento de sobrancelhas e cabeça que traduzindo daria algo como preciso mesmo responder?, mas que a mulher da copa entendeu mais como um não tá vendo? muito do mal educado.

Equívocos não são raros na comunicação gestual, seja por imperícia de quem gesticula ou de quem interpreta, assim que estamos quase sempre querendo dar a entender isso e dando a entender aquilo, tanto quanto interpretando assim, quando era assado. E esse foi um pensamento que ele não teve quando, olhando as feições das mulheres da copa, entendeu que devia se envergonhar de alguma forma, pelo menos um pouco. Agora, não sabia se pelo gesto feito ou pelo que o rolo de papel higiênico indicava que iria fazer. Os intestinos pediram adiamento para a questão, no que foram imediatamente atendidos.

Depois de receber o pedido, ele deu uma volta em 180 graus no próprio eixo e viu o banheiro, o lugar propício pra resolver aquela questão. Estava a algumas poucas dezenas de metros, depois de um corredor que lhe pareceu interminável e de repente, aparentando ter muito mais portas do que de fato tinha (e assim aumentando a possibilidade de olhos curiosos e inibidores como os das mulheres da copa). Ele não ia desistir. Deu o primeiro passo, resoluto, depois o segundo, o terceiro, o quarto, experimentando aquela sensação de só mais um pouco que enche de alegria o coração daqueles que estão chegando aonde querem chegar. Mas aí, pareceu um pesadelo.

Como se todos os que poderiam deixar para sair de suas salas noutra hora fossem repentinamente assediados por uma vontade irresistível de sair naquele exato momento, todos os que poderiam deixar para sair de suas salas noutra hora saíram naquele exato momento. Qualquer um que acreditasse em destino, teria naquela hora, vendo aquela cena incrível, um punhado de portas se abrindo ao mesmo tempo, a certeza de que alguns eventos não acontecem à toa. Qualquer outro que se preocupasse mais em ver expressões faciais teria percebido naquele momento estampado no rosto do apertado uma expressão meio irritada, meio conformada que deixavam claro as palavras que quiseram sair e não saíram: só me faltava essa!

Ele não ia mais recuar, não podia mais recuar, ia passar direto pelos colegas de trabalho, nem diria bom dia, nem oi, nem nada, ou diria, de passagem, passando sem diminuir o passo. Tudo bem pegar de mal educado uma vez na vida, além do mais, todos podiam ver no rosto dele a pressa que tinha e se aquele rolo de papel higiênico apertado na mão nervosa e impaciente não sinalizasse a razão, não tinha mesmo tempo para explicar, explicaria depois, fosse o caso, não fosse, tudo bem também, era o jeito, nem sempre é possível combinar nossas urgências pessoais com as solicitações da cortesia social.

Era uma questão de pesar o que seria pior, o risco de parecer mal educado ou o de fazer nas calças e ter que sair do emprego, da cidade, talvez até do Estado. Melhor correr o risco menor. Foi o que ele fez. Claro que essas operações mentais e essas tomadas de decisão ligeiras e ponderadas não aconteceram de forma tão lúcida como vai expressa. Na cabeça dele, era uma confusão, os intestinos pediam, exigiam, a ele cabia obedecer, ele obedecia e o que lhe surgia na mente não chegava a ser um pensamento superior, era mais uma impressão, algo como um instinto a que algumas palavras e imagens se juntavam igualmente obscuras. A única coisa realmente clara era a iminência do desastre.

Passou por um, passou por outro, desvencilhou-se dessa mão, esquivou-se daquela conversa, daquele olhar. Mais adiante, deu um drible noutro, sempre levantando o rolo de papel e fazendo uma cara que não dava pra saber exatamente o que queria dizer, cada um entendia o que queria, ele já não estava nem aí, não respondia mais pelos seus atos, os intestinos tinham assumido. Chegou à porta do banheiro, abriu, empurrou um vulto, o braço foi que fez a vez da boca pra pedir licença, com o caminho desobstruído, os intestinos se distraíram, o cérebro voltou a mandar: seria o presidente da firma aquele vulto empurrado? Não podia ser, ele nunca usava o banheiro comum, tinha um banheiro na sala dele, por que usaria este? Mas era, minha nossa, era o presidente!

Devia voltar e se desculpar, imediatamente, pensou, com o cérebro, tinha que manter o emprego, mas os intestinos interviram, rápidos, bravos, contrariados, veementes, desconsiderando títulos e hierarquias: e nós aqui? Ele que se desculpasse depois, outro dia, noutro momento, agora tinha algo pra resolver, algo que não podia esperar mais, nem um segundo mais. Abriu e fechou a porta atrás de si com uma batida forte, baixou as calças, sentou-se no vaso e nada aconteceu. Esperou. É claro que estava para acontecer, ia acontecer, esperou mais um pouco. Não, não pode ser, só pode ser brincadeira, PELAMORDEDEUS! 

Não estava mais com vontade.





terça-feira, 7 de outubro de 2014

Uso Indevido de Imagem




Maria não sabia mais o que fazer com os pestes adolescentes que tinha em casa. Bater, ela não batia. Tinha muita vontade, chegava no quase, mas não batia. Tinha essa lei aí que estava sendo votada, não tinha? Não tendo certeza, ela não arriscava. Que mundo é esse, ela pensava, que os pais não podem mais nem educar os próprios filhos? Já tinha ouvido que o caçula da vizinha, um menininho de 5 anos, gritou pra mãe eu fô na puliça, pate neu pa tu fê, pate. Daqui a pouco, será assim mesmo, os filhos é que mandarão nos pais.

Sem poder contar com sandálias, cintos e outros recursos educativos, usava de castigos e ameaças. Mas nem os castigos nem as ameaças estavam funcionando mais, por mais que os intensificasse, não adiantava. Ela tirava a internet, a tv, os celulares, o dinheiro do lanche, o jantar, e nada. Ela partia de vou esquentar teu couro, passava por eu quebro teus ossos, finalmente chegando em algo como arranco a tua cabeça fora e vou chutando daqui até a esquina e nada.

Ultimamente, Maria estava tentando a boa e velha chantagem emocional, conselho de uma amiga, uma profissional. Amanda dizia vocês tem que parar com isso, vocês querem me ver louca? Querem? Eu vou acabar morrendo assim, não aguento mais… e pronto, os 3 filhos se aquietavam - na verdade, se deprimiam.  Mas o mesmo não estava acontecendo com Maria, ela fazia um drama, falava que não aguentava mais, ensaiava uma lágrima, um soluço, os cães paravam só na hora, 15 minutos depois, já estavam aprontando, os desalmados.

Os filhos de Maria eram dois, mas valiam por mil, Cosme e Damião. Preciso dizer que eram gêmeos? 12 anos e ninguém sabia direito como é que ainda não tinham sido diagnosticados com hiperatividade, pois aquela inquietação toda não podia ser normal. Não era normal, pensava Maria, mas não os levava ao psicólogo, porque psicólogo é coisa de doido e os filhos, atentados eram, doidos não.

Eles corriam pela casa, gritavam sempre, jogavam bola na sala. Teve uma vez que eles desmontaram um ventilador, uma tv, o videogame, noutra quebraram a porta, uma porta, dá pra imaginar? Maria chegou do trabalho e quando viu, a porta estava escorada na parede e os dois disseram que foi sem querer. Agora, como foi que conseguiram fazer aquilo, até hoje Maria não sabe.

Agora, tinham inventado uma brincadeira - eu vi no UFC. A brincadeira, de uma mecânica muito simples, consistia no seguinte: aquele que pegava o outro distraído podia aplicar qualquer golpe visto numa luta do UFC. Era algo como o fusca azul. No começo, os dois se continham e não faziam mais que um mata leão aqui, outro ali. Então, um deles viu um chute que achou muito bonito e é claro que experimentou a efetividade do golpe no irmão que, por sua vez, testou uma cotovelada giratória nas ventas do chutador.

Isso já vinha acontecendo há algumas semanas. E Maria não sabia mais o que fazer, era briga todo dia, às vezes, mais que uma por dia, ela gritava, castigava, ameaçava, fingia que chorava, dizia que ia deserdar os dois e nada. Então, ela teve a grande ideia. Pegou o celular, filmou os dois brigando na sala e então, disse, mostrando o vídeo, se vocês não se aquietarem, eu posto isso no Youtube e mando pra todo mundo da escola de vocês. Os dois se aquietaram.

Se o vídeo se resumisse a mostrar os dois brigando, certamente, eles teriam respondido, posta. E aposto que até sentiriam orgulho pelo material gravado e sua postagem no Youtube. Mas tinha um detalhe: sendo a casa muito quente, os dois sempre andavam de cueca. O momento da briga não foi uma exceção. O vídeo mostrava os dois magrelos de membros transparentes como osgas se esmurrando, chutando e agarrando só de cueca. Era ridículo.

A vida de Maria mudou. Com aquele vídeo no celular, ela tinha de volta o poder perdido. E não precisava mais gritar, se descabelar, fingir choros e soluços, bastava dizer, olha que eu posto! e os meninos ou paravam de fazer o que não deviam estar fazendo ou começavam a fazer o que deviam estar fazendo. Obrigada, Deus, agradecia, Maria.

Mas aí, as brigas começaram de novo e agora mais intensas, como se os 3 dias de sossego só tivessem servido para o descanso dos lutadores. Maria gritava que ia postar o vídeo, os dois riam e continuam. Ela se aproximava e separava os dois. Minutos depois, eles estavam de novo atracados, um tentando acertar a cara do outro. Maria gritava eu posto o vídeo, hein? E então, um dos meninos disse, cruzando os braços e levantando o queixo:

- Posta, pode postar, que a gente processa a senhora. Já ouviu falar de uso indevido de imagem?






quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Todo Morto Vira Santo




1.
Hermínio tinha 53 anos, estava acima do peso e, para seu azar, entre todas as coisas saudáveis que detestava, como esportes, uma alimentação decente, sobriedade e essa besteirada toda, detestava médicos, hospitais, postos de saúde, remédios, cirurgias.

Já tinha sofrido um infarto (não foi exatamente um infarto, ele dizia, foi só um susto), os médicos disseram que foi o estresse associado ao sedentarismo e a frequência muito alta em churrascos e distribuidoras de bebida. Ele devia parar de beber, controlar a comida e tomar o remédio direito, mas não estava nem aí.

Era forte como um touro, pensava, e esse negócio de “o coração estar nas últimas” com certeza era conversa de médico para causar preocupação à toa. Hermínio não era mais uma criança, não seria obrigado a fazer o que não queria por causa de medinhos. Estava bem, ponto, aquilo tinha sido gases, nada mais.

Funcionário do Estado, daqueles que já contavam os anos para a aposentadoria, trabalhava até uma e meia e o resto do dia, completava com cerveja, sofá e a programação da TV a cabo. Nas tardes de segunda à sexta, não fazia outra coisa, a não ser ficar sentado na sala, bebendo e reclamando dos filmes ruins que estavam passando, das mentiras dos jornais, dos programas esportivos e de ter que pagar um absurdo por aquilo.

No fim de semana, acordava tarde e antes de almoçar, se não tivesse cerveja em casa, corria para um bar ali das redondezas e ficava até o anoitecer, ou até a mulher mandar alguém o chamar, com alguma demanda urgente, como trocar uma lâmpada ou a botija de gás. Quando não, ficava em casa mesmo, botava umas músicas do seu tempo para tocar, Creedence, Raul Seixas, Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos, e esperava a segunda para ir trabalhar. A mulher não gostava do som naquela altura toda, então, ele levava pro quintal ou pro alpendre da casa.

Tereza reclamava. Falava que ele precisava se cuidar mais, perguntava se era só aquilo mesmo que ele queria fazer com o resto de vida que tinha. Ele pensava consigo, mulher só serve pra isso, reclamar e respondia: sim, era o que queria fazer com o resto dos dias que tinha. Já tinha criado os filhos, sustentava a casa, pagava os impostos, pra que mais?

Os dois filhos, já homens feitos e pais de família, de vez em quando, se desvencilhavam de suas rotinas cotidianas e iam visitar os pais. Hermínio gostava do neto que tinha, um só, um menino atentado e boca suja que, ninguém sabia direito o motivo, era o orgulho do avô.


2.
Tereza chegou às 6 e 30, horário rotineiro, trabalhava até as 5 e 30, pegava o carro, enfrentava o trânsito de Porto Velho (que ultimamente estava insano) e chegava em casa para cozinhar, bater boca com o marido antes de conseguir ver novela na TV, dormir com aquele porco ao lado fedendo a suor e cerveja, e recomeçar, no dia seguinte.

Era quarta-feira. Abriu o portão, manobrou o carro, entrou em casa. O marido estava deitado no chão, com a cara estúpida e o bucho inchado para cima. “Com certeza, bêbado, o safado”, ela pensou. Passou direto pro banheiro, foi tomar um banho, tentar lavar do corpo e da mente o peso daquele dia horrível no trabalho.

Asseada, foi à cozinha fazer um arroz, um pouco de salada e fritar um bife. Era um saco ter que cozinhar pro marido, ele não sabia nem ferver água, imagine fazer uma refeição. Daquele tamanho e não podia passar dois dias em casa sozinho que, sem dúvidas morreria de fome. Tereza botava o arroz no fogo e pensava em como ia dar a notícia pra ele, não tinha mais jeito, queria ser livre, o divórcio seria um recomeço. Ela não era muito nova, sabia, tinha 45 anos, muito bem disfarçados pela academia e o uso ostensivo de comésticos, mas não queria mais aquela vida.

Tinha colocado silicone há um ano e meio, pagou com algumas economias e o resto, financiou. E pra quê? O marido só sabia dizer que aquilo era dinheiro no lixo. Mas Tereza, que sempre teve seios pequenos, queria que os novos fossem utilizados por alguém, desejava entregá-los para a satisfação erótica de alguém que a olhasse como um lobo deve olhar a presa momentos antes do ataque. Isso era errado? Queria sentir pelo menos mais uma vez, antes de morrer, o que era ser desejada, amada, procurada, o que não ia acontecer do lado daquele porco preguiçoso, gigante e peludo.

Às vezes, ela pensava em pular a cerca, está na moda, afinal, todo mundo é infiel, e os meninos novinhos do trabalho, todos braçudos, cabeças de vento e com seus lindos rostos risonhos e abobalhados, viviam elogiando as suas pernas, a sua boca, os peitões turbinados. Ela gostava disso, se envaidecia toda, mas queria mais, queria dar umas lições pra aqueles jovens transbordando vida.

Mas, no fundo, ela sabia que não podia fazer assim, não era do feitio dela. Tereza tinha sido educada numa época quando o casamento era sagrado e ficava abismada vendo as menininhas futricando com um e outro por aí e achava sacanagem pura aquilo de liberação sexual feminina, pretexto pra fornicar. Não era pra ela, por isso, primeiro ia se separar.

Daquela noite não passaria, eles conversariam, gritariam, teria a última discussão, o quebra quebra de despedida, ela juntaria as coisas do marido e o poria na rua e daquela vez, não deixaria ele voltar, de jeito nenhum. Talvez, não fosse assim, e eles conseguissem chegar a um acordo, ele saía de casa, levava o sofá e a TV e pronto, estariam livres para viver a vida que queriam.


3.
Deu a hora da novela. Tereza colocou a sua comida no prato, foi para a sala, sentou-se no sofá, gritou: vai passar a noite toda aí? E deu um chutinho na perna do marido. Ele nem se mexeu. Menos mal, ela pensou, pelo menos não teria a briga de sempre pra mudar de canal.

Ligou a TV, mudou o canal, a novela tinha começado. Comeu tranquilamente, acompanhando o enredo pobre da novela. Ela sabia de cor, mocinho e mocinha, juntos no final, vilão ou vilã, mortos ou presos ou pobres pra sempre, mas pelo menos, era confortável ver a repetição daqueles enredos.

Repetição, ela pensava, mudavam um tanto as coisas, incluíam questões sociais, preconceito, discriminação e tudo mais, e ultimamente tinham causado aquela polêmica com o beijo gay, mas Tereza sabia - tudo igual. Mas tinha algo estranho e não era na novela, faltava algo, ela sentia, e não era o que faltava na novela.

Era o ronco do marido. Sempre que dormia Hermínio fazia um barulho de trator antigo, mais suave ao aspirar, mais poçante ao expirar. Tereza colocou a TV no mudo. Aprumou os ouvidos. Não podia ser, tinha algo de muito errado. Colocou o prato sobre o braço do sofá, chegou bem perto do rosto do marido, nada. Tentou sacudi-lo um pouco, conseguiu só um pouco mesmo, deu-lhe um tapão na cara, outro no meio dos peitos e mais alguns e ainda outras sacudidas, agora mais fortes: nada. Não podia ser... Não podia ser...

(...)



PARTE 02.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Quebra Esse Galho, aí, Camarada?





Manuel estava com sorte, sentia que estava. Aquela manhã fazia parte de uma nova fase da sua vida. Tomou banho, vestiu a melhor roupa (que não era lá essa coisa toda), tomou o café da manhã, basicamente café e 4 bolachas de água e sal, subiu na bicicleta e lá se foi, às 6 e 30 da manhã, rumo ao novo emprego.

Era o terceiro dia, Manuel trabalhava das 7 às 12, o combinado era 400 reais por mês, 100 por semana, era uma bondade que o dono da mecânica tava fazendo pra ele, foi, pelo menos, o que o dono disse, não tinha mais vagas, mas ia quebrar o galho do rapaz e deixar que ele ficasse por ali ajudando, até aparecer algo. Era pra Manuel fazer uma coisinha aqui, outra ali, que na prática, queria dizer tudo e mais um pouco.

Quando ele chegava, a primeira tarefa era ir à padaria comprar o lanche pro resto da equipe, daí pra adiante, não parava mais, tirava pneus, carregava chaves e peças grandes, lixava, pintava. Ainda estava aprendendo, mas sempre que tinha algo pra fazer que ninguém mais queria fazer, chamavam o rapaz. Mas Manuel tentava não se importar, ia ganhar algum dinheiro, comprar umas roupas, ajudar em casa, estava bom. Era o jeito mesmo. Nem no lava jato tinham dado uma colocação pra ele, disse o dono, você é muito alto e o mandou embora.

1 e 30 da tarde, Manuel ainda tava trabalhando. O combinado era trabalhar até meio dia, mas sempre ficava pra terminar algo que não podia esperar pelo dia seguinte, vinha o dono da mecânica e perguntava: Quebra esse galho, aí, camarada? Manuel respondia: pode crer. E o terceiro dia ia ficando como os dois primeiros, em que ele tinha ficado até as 2 da tarde, ajudando, quebrando um galho, o que lhe dava uma sensação de que aquilo não ia dar certo.

1 e 50, veio o dono da mecânica e falou:

- Olha, camarada, o menino da tarde não tá vindo, é um vagabundo do caralho, tu não quer vir não, a gente trabalha até as 6, e eu te dou duzentão a mais.

- E é pra fazer o quê?

- O de sempre, camarada, uma coisinha aqui, outra ali.

- Pô, a gente sabe que não é assim, eu comecei segunda e quando chego aqui não paro mais, até o pedreiro que tá fazendo o muro aí, eu já ajudei.

- É assim, mesmo camarada, a gente tem que se ajudar…

- E o almoço? Não tem como eu ir em casa almoçar e voltar.

- Aí, não, né, camarada. Se eu for te dar o do almoço, quebro. Posso fazer assim, te adiantar algum pra tu ir comendo alguma coisa até tu receber.

- Mais aí, vou acabar pagando pra trabalhar. Sem dizer que o combinado era eu ficar até meio dia e estou ficando todo dia até as 2. Aí, a gente vai combinar até as 6 e quando for ver, vou estar morando aqui. - Disse Manuel e esta última frase com um meio riso no rosto, numa tímida postura desafiadora.

- E essas gracinhas, camarada, acha que vai longe com elas?

- Não sei, não, cara, vou pensar…

- Vai pensar? Acho que tu é vagabundo também, hein? Essa juventude de hoje não quer mesmo saber de trabalho, quer só folga.

- Eu tenho que pensar, porque faço supletivo à noite e a escola fica perto de casa, se eu for morrer de trabalhar aqui e tiver que parar de estudar de novo, como é que vou ficar daqui a um tempo?

- Tem que ver, camarada, num tá precisando do dinheiro? Vê aí…

No outro dia, Manuel acordou na mesma hora, tomou banho, tomou o café, dessa vez sem nada mais, subiu na bicicleta e atravessou a cidade mais uma vez pra ir ao trabalho, não ia aceitar ficar até as 6, não valia a pena. Chegou, perguntou pelo dinheiro pro pão do pessoal, perguntou pelo dono, mas ele não estava lá. Então, um dos outros trabalhadores se aproximou, estendeu um bolo de cédulas de 2 reais e disse:

- Aqui, Manel, teu dinheiro, o chefe falou que não precisa mais vir não. Ele arranjou outro cara.

- Quê? - Perguntou Manuel com vontade de mandá-lo enrolar um pouco mais o dinheiro e meter lá naquele lugar.

Mas não podia fazer isso. Pegou o dinheiro, meteu no bolso e voltou pra casa, imaginando o que faria agora, pensando na injustiça do mundo, naquele gordo salafrário dono de oficina desgraçado. Só tinha uma certeza, seria foda. Devia ter aceitado, porra, devia ter aceitado.




sábado, 9 de agosto de 2014

Superstar



Geimison tinha ficado famoso de uma hora pra outra, aos 12 anos de idade, por dublar uma música famosa de um jeito engraçado. O irmão mais velho de zoeira postou o vídeo no Youtube e mandou pros amigos que mandaram pros amigos que mandaram até pra quem não conheciam e estes, ainda para muitos outros. A produção acabou aparecendo num blog de humor muito conhecido. Viralizou. Quem é que  não gosta de criança fazendo criancices?

A fama aconteceu. Geimison apareceu em programas de TV, deu entrevistas, ganhou a reforma da casa dos pais, mobília nova, era tido como um prodígio, conquistaria o mundo, faria turnês internacionais. Ele se sentia assim, sentia que ia conquistar o mundo, as pessoas faziam que ele sentisse isso. Na escola, fizeram uma festa para recebê-lo. Todo mundo o cumprimentava pelas ruas. Iam à casa dele, vê-lo e pedir uma foto ou um autógrafo, ou os dois. Ele dormia feliz, empolgado e sempre sonhava com o monte de brinquedos que poderia comprar, com uma viagem à Disneylândia, sucesso é isso.

O tempo passou. E com a mesma velocidade com que o menino fora lançado à vida pública fora de novo arremessado para o total anonimato. Na semana seguinte, já o assunto era outro. Era um gato pulando alto perseguindo a luz vermelha de um laser, uma bebezinha lendo, fazendo que lia, o vídeo de uma briga, o vídeo de uma jovem falando engraçado no momento do sexo. No mês seguinte, o vídeo de Geimison era já antiguidade. E nem os amigos de antigamente, que Geimison tinha desprezado pela fama, falavam direito com ele.

Geimison tentou refazer o sucesso com outros vídeos. Mas não aconteceu. No último, ele tinha já 15 anos, não era engraçado, era só um adolescente do interior com maquiagem pesada dublando a Lady Gaga, ninguém achou graça. Isso o deprimiu de vez. Na escola (outra já porque na primeira ninguém mais andava com ele), o pessoal tinha visto a sua mais nova produção. Foi unânime, era ridículo, vergonhoso, miseravelmente vergonhoso. A tentativa desesperada de uma subsubcelebridade voltar a ser o centro das atenções. Um babaca a mais no mundo.

Um dia, a mãe, quem sempre contava a história pros parentes e amigos da família, que ainda falava com orgulho de quando o filho tinha apertado a mão do Sílvio Santos, frisando bem com a fala e os olhos arregalados o “Silvio Santos”, chegou para o filho e perguntou o que é que havia com ele, que andava cabisbaixo e sem comer direito. Geimison lançou um olhar dramático para o longínquo horizonte e, com grande teatralidade e afetação, pronunciou: é como dizem por aí, mãe, a fama é uma vagabunda. Hoje te amam e amanhã limpam a bunda com a tua cara. Uns dias depois, fez um vídeo sobre isso. Também não deu certo.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Era Carteira Assinada






Janderson terminou o banho e ainda no banheiro, sentia a pele arder. Era sempre difícil se vestir naquele calor de Porto Velho, pôr calça e camisa, depois, meia e tênis, era como vestir uma armadura quente, logo dava aquela angústia, depois, aquela sensação de não estar limpo. Não precisou pentear o cabelo cortado na máquina 1, escovou os dentes e foi pra parada de ônibus. A poeira e o sol ajudaram a piorar aquela sensação terrível, aquela ardência nos peitos, o meio das coxas e o suvaco já úmidos e preguentos de suor.

Saiu de casa ao meio dia. A entrevista seria só às duas da tarde, mas, ele sabia, saísse um pouco depois e era atraso na certa. Não queria fazer nada errado, aquela era uma oportunidade única, a primeira em muito tempo. Conseguisse o emprego e não precisaria mais depender das vicissitudes dos bicos que fazia. Fazia de tudo, de descarregar carretas a capinar quintais, de esvaziar fossas a ajudar na organização de festas. Não tinha jeito, ganhava pouco, sempre faltava dinheiro em casa. Tinha o aluguel e a conta de energia pra piorar tudo. Janderson morava com a mãe e duas irmãs pequenas, a mãe trabalhava como diarista e também contava com recebimentos muito irregulares. Aquele emprego, mudaria as coisas.

Depois de trinta minutos, ao sol, aspirando a poeira grossa e morna do bairro e sentindo falta de um vento qualquer, Janderson subiu no ônibus, entregou algumas moedas para o cobrador e foi se entalar entre os muitos que por ali já estavam. Quarenta minutos depois, estava descendo do ônibus. Andou ainda umas quadras e encontrou o restaurante onde iria ser entrevistado. Um vizinho tinha feito a indicação, Janderson agradeceu e não teve dúvidas, era carteira assinada e tudo mais.

Chegou no restaurante, que não era lá grande coisa, tinha na parede um verde desbotado, um cheiro forte de gordura engrossando o ar, mobília de madeira, um ou outro cliente almoçava, pingando suor. Ia dar duas horas, perguntou pelo seu Antônio. O cara do balcão perguntou: o que quer com ele? Trabalho - disse Janderson, meio sem jeito. Ele ainda não chegou, senta ali e espera, acho que ele vem hoje aqui - disse sem simpatia o cara do balcão. Antônio chegou pelas quatro da tarde. Durante o tempo que passou, Janderson não pensava em mais nada, a não ser em ir embora dali, não estava tudo combinado? Que porra era aquela de “talvez ele venha hoje aqui”. E se não viesse?

Antônio era um nojento, dava pra ver. Estava bem vestido, mas a roupa não podia disfarçar a cara de grande filho da puta. Chegou, falou com o cara do balcão, entrou numa porta e ficou mais uma meia hora por lá. Janderson pensou, era mesmo uma sacanagem, mas o que podia fazer? Era ele quem estava em desvantagem, só podia esperar. Antônio saiu, foi ao balcão, chamou o jovem com um sinal de mão um tanto desdenhoso. Apertou-lhe a mão sem vontade e perguntou: foi o Zé que te mandou aqui? Foi, respondeu Janderson. É meu camarada, tu tá mesmo precisando dum emprego, dá pra ver, olha isso que está vestindo, que roupa é essa? E esse cabelo? A polícia te pegou por aí? Janderson não riu. Não sei, não, se vai dar pra te arranjar alguma coisa por aqui, será que tu não vai me roubar nada? Antônio falou isso e cutucou o cara do balcão, ambos riram. Janderson não.

Eu quero trabalhar. Quisesse roubar não tava aqui… disse Janderson com muita certeza e determinação, parando bem antes do “seu filho da puta” que ficou na garganta, bem perto de sair. Antônio olhou pro jovem: Tu é arrogante, né? Cheio de marra, aí. Não acha que é muita marra pra um passafome? Janderson respirou fundo. Sabia que podia dar conta dos dois ali mesmo, era só começar. Mas não podia, precisava do emprego, da renda. Pensou na mãe, nas irmãs e no quanto era difícil às vezes não ter dinheiro nem pra mistura. Quando tinha, era salsicha ou ovo. Fígado e carne moída só nos dias fartura. Não tinha jeito, tinha que conseguir o trabalho.

Antônio, coçou o queixo e disse: o Zé tá comendo a tua mãe? Acho que tá, hein?, se não, porque ia tá forçando a amizade comigo pra arranjar um emprego prum moleque vagabundo? Janderson sentiu vontade de quebrar tudo ali, começando pela cara daquele veado desgraçado, tinha bons braços, tinha raiva, tinha tudo, mas não quebrou nada. Olhou pra Antônio e tentando falar, apenas balbuciou, cheio de fúria, quase sem abrir a boca: enfia esse emprego no cu. E saiu desejando todo o mal do mundo praquele desgraçado, filho de uma arrombada, planejando voltar de noite e incendiar aquela porra de restaurante meia boca. Foi até o Mercado Cultural, onde já tinha ido pra algumas festas de rock sem um real no bolso, correu pro banheiro fedorento, entrou numa das cabines e começou a chorar. Tinha dezenove anos e se sentia de novo o menino abandonado pelo pai, sem poder fazer nada, se sentido um fraco, um merda, um nada, pensando que ia mesmo morrer de fome, ele e a família.

Quinze minutos depois, o seu ódio se converteu numa determinação sem precedentes, isso não ia ficar assim, ele não seria esmagado, não seria sempre um nada, ele conseguiria. Aqueles pilantras e todos os da sua laia iam ver. Enxugou as lágrimas e foi pra casa. Seriam tempos realmente difíceis.