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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

É a empresa!


Moto no conserto. Batida. Um irresponsável atravessou a preferencial. Não é nada inédito. A gente vê isso acontecer o tempo todo, mas quando acontece com a gente é diferente. É como se nunca tivesse acontecido com ninguém. Não aconteceu comigo, aconteceu com a minha mulher. Felizmente, ela é sempre prudente e atenta, estava devagar e só se arranhou. Ficou muito assustada, mas conseguiu lidar bem com a situação.

O irresponsável ainda bateu boca, quis dar uma de dono da razão, mas assumiu o prejuízo, só das peças quebradas, porque não estava com dinheiro pras arranhadas... Depois podemos até ver uma forma aí, de comprar essas… Depois… Depois = nunca! Ainda pagou o conserto como se fizesse um favor. Favor quem faz é a gente que vai passar o mês de fevereiro com a chateação de não ter moto e não cobramos nada por isso.

O mês inteiro sem moto, empenou o garfo e aqui não tem, não tem várias peças, então, é preciso pedir de São Paulo, com demora média de 15 dias úteis. Sabe o que são 15 dias úteis no mês do carnaval? O mês inteiro. Mas não tem como diminuir um pouco esse prazo? Desculpe, senhor, mas não sou eu, é a empresa. É a empresa.

Da outra vez foi a mesma coisa, mas pior, porque mandaram o tanque errado. Quem mandou o tanque errado? A empresa. Da outra vez, a moto estava parada. Um cara de biz atravessou a preferencial, acertou um táxi, o taxista perdeu o controle bateu num carro estacionado, este bateu na moto, imprensando a bichinha contra outro carro. Quase 3000 reais.

O taxista cooperou, no começo. Depois, se tornou arrogante, se chateou. A seguradora fez igual, no começo, ia pagar, depois, disseram que não ia. Senhor, não posso fazer nada, é a empresa. A gente recorreu a um advogado. Advogada, na verdade. Mãe de um amigo, também amiga. Processou taxista e seguradora. A seguradora quis fazer um acordo: concordamos que era a melhor opção, aceitamos, o prejuízo foi pago. Mas a gente ficou sem moto, esperando as peças chegar.

Depois que a gente tem moto, a nossa relação com o espaço urbano muda, os lugares ficam mais perto e acessíveis, os caminhos mais curtos e a disposição do veículo, deixa tudo mais tranquilo. Primeiro, a gente se maravilha, se congratula pela compra, e então, se acostuma logo com a facilidade. Com a mordomia, como diz minha mãe. Aí, ter que pegar ônibus vira um problema.

Eu não vou dizer que detesto pegar ônibus pela manhã para ir trabalhar, até gosto na verdade. Acordo mais cedo pra pegar o mais vazio, me sento e leio. Mas vejo muita gente louca de raiva. A empresa de ônibus mudou, piorou um pouco, já ameaçaram greve, não fizeram. O pessoal reclama porque o motorista passa sem parar nas paradas não sinalizadas, não posso fazer nada, ele diz, é a empresa! O pessoal reclama porque o motorista está parando, porque o ônibus está entupido de gente. É a empresa. Ele corre demais, freia brusco demais, faz curvas muito rápidas. Empresa...

Quem é essa empresa, né? Empresa é um conceito muito abstrato pra gente poder reclamar. Chego a pensar que a gente acredita em empresas, bancos, indústrias e por aí vai, como os gregos acreditavam em suas divindades, como entidades poderosas, inalcançáveis a que não podemos desafiar se não elas nos lascam. Os gregos, pelo menos, tinham as histórias bonitas pra contar. A gente só tem desgostos e reclamações pra fazer. E olhe lá!



                                                             
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Por que sou poeta - ou por que não sou um dançarino



O que mais gosto na Poesia é a possibilidade de fazê-la algo cotidiano, o que seria muito fácil de fazer com a dança se a vida fosse um musical ou um videoclipe, mas não sendo, então, não é. Embora de vez em quando eu pegue a Vanessa pra dançar nas situações mais variadas, no supermercado, por exemplo, penso que fazer isso no trabalho, na faculdade fora de um contexto descontraído, ia favorecer a ideia de que não bato bem do juízo.

Um desses dias, estava pensando em como seria a minha rotina se, em vez de poeta, eu fosse um dançarino. Eu sei, esse não é um pensamento que ocorre todos os dias a todas as pessoas do mundo, então, por que pensar numa coisa dessas? Respondo: pelo lazer da imaginação. Já ouviu falar de flanar? Como o corpo, a mente também precisa de uns exercícios pelo menos três vezes por semana. Além do mais, aposto (mas não uma quantia considerável) que a alguém já ocorreu e se não ocorreu, pode ser que aberto o precedente, passe a ocorrer.

Para guiar a imaginação e não deixá-la correr solta, tomei por base a forma como lido cotidianamente com versos e frases de efeito, fiquei pensando se em lugar de falar, dançasse. Não sei se você sabe, mas existem muitas formas de implementar Poesia ao dia a dia. No começo é difícil reconhecer os ensejos, mas em pouco tempo, se pega o jeito.

Não estou falando de parar na rua, no trabalho, numa loja ou onde quer que seja e começar a declamar versos com a voz empostada e gestos grandiloquentes, estou falando do princípio poético, o de falar bonito. E não só falar bonito. Falar o que valha a pena ser falado e ouvido, impregnando o discurso com o mais possível de beleza e profundidade. E estou falando dos discursos mais gratuitos e triviais.

Não seria pelo menos curioso, alguém que se expressasse por meio da dança, não em palcos, praças e eventos específicos, mas cotidianamente? Para momentos de reflexão, movimentos demorados e dramáticos, para momentos de alegria, passos rápidos, saltos e rodopios. Seria um transtorno! Talvez um belo transtorno, a depender do dançarino, da dança e claro, da plateia inusitada, mas ainda um transtorno. Pra mim então, um transtorno e meio. Tenho mais de 1,80, peso 90 quilos e essas são as dimensões do desengonço.

Como sou do tipo engraçadinho, podia ser comediante também, faria piadas, o que seria mais cabível que a dança. Do mesmo modo que faço com frases e versos, podia encher o cotidiano de brincadeiras, gracejos e comentários jocosos (o que já faço e que nem sempre dá certo), mas aí, deixaria faltar o componente trágico, sensível e comovente da Vida. Com a Poesia, não! Pelo menos do jeito que a penso, ela pode falar de qualquer tema e de muitos jeitos.

Podia ser um completo intelectual também, falando coisas simples de um jeito difícil, como diz Bukowski, mas aí, perderia outra coisa que gosto muito - a possibilidade do entendimento. Gosto bastante de fazer sentido e o intelectualismo compromete um pouco esse gosto. Tiro isso pelos dias que ando realmente inspirado, cerebral, falando de Nietzsche, Freud, Platão e por aí vai, às vezes, nem eu me entendo. Com a Poesia, eu posso ser simples como um bêbado de bar e tão enigmático quanto.

Não sei o de vocês, mas o meu cotidiano é repleto de conversações e de todos os temas o que me permite uma constante exploração da fala e alguns momentos únicos de eloquência e envolvimento, o que seria bem difícil de conseguir sendo um dançarino, mas sendo um poeta, toda hora é hora de Poesia.


                                                    
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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Coisa de Escritor




Não é difícil convencer alguém de que um escritor tem uma relação especial com as palavras, porque é algo que está implícito, afinal, as palavras são sua matéria-prima. Mas essa relação especial é mais especial com algumas palavras do que com outras. Duvido muito que um autor não tenha predileções e não seja guiado por suas preferências quando está escrevendo, acho que isso é que faz seu estilo, seu modo de ser pelas palavras.

Quando você lida com palavras e espera encontrar nelas representações satisfatórias do que pensa, sente, imagina e por aí vai, acaba percebendo sutilezas em seus significados, no som, na forma como elas são escritas. Eu pensei em dar vários exemplos, mas agora que pensei nisso, as palavras se espantaram e simplesmente correram para longe da minha consciência. Só duas ficaram, talvez porque se compadeceram com o desamparo em que suas mães, irmãs, tias e primas de segundo grau me deixaram. A primeira é aturdido. A segunda: idiossincrasia.

Quando acordei uns dias atrás antes do despertador tocar, fiquei aturdido. Nem atormentado, nem atordoado, nem espantado, grogue ou lesão. Tem bastante tempo que não ouço essa palavra por aí, mas, ao descrever para mim mesmo os humores com que estava durante o ocorrido, nenhuma outra palavra ou coleção equivalente pareceu atender ao que pedia a situação.

Não adianta procurar no dicionário para perceber a diferença entre os verbetes que utilizei, vai procurar em vão a sutileza escondida na palavra aturdido que a distancia e destaca de termos parecidos. É algo pessoal, é como uma sensação e embora eu nem lembre quando ou como foi que conheci essa palavra, sempre que ela me ocorre eu sei que é ela que eu estava procurando.

Diferente de aturdido, cujo primeiro contato minha memória já não quer mostrar, eu lembro perfeitamente de ter lido idiossincrasia (a outra palavra que não deu no pé) em um dos poemas do Augusto dos Anjos e na época, quando li o que significava e o comparei com o uso que o poeta fez, fiquei besta e pensei é isso mesmo. EXATAMENTE ISSO!

Também nesse caso, não adianta correr pro Google procurar o significado da palavra, o sentido oficial que lhe atribuem tem pouco a ver com o sentido que ela ganhou para mim. Idiossincrasia é algo singular, é uma percepção só sua e de mais ninguém. É claro que eu posso usar um dos muitos sinônimos ou juntar palavras a fim de emular o significado de idiossincrasia, poderia até ser mais elegante, mais estiloso, mas não seria a mesma coisa.





                                          
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quarta-feira, 17 de junho de 2015

A Frieza do Método





Recentemente, postei mais uma foto de uma folha impressa lotada de cima à baixo de rabiscos, prova do meu processo criativo e, mais ainda, das revisões que faço. Depois de ver essa foto, esse meu amigo me perguntou como eu fazia pra escrever.

Primeiro falei que era tipo Chico Xavier. Transe, olhos revirados e o lápis frenético sobre o papel. Rimos. Eu ri mais. Ele me interrompeu e falou: Não, sim. Mas sério mesmo, como é? Parei de rir e respondi direito.

A ideia aparece, então, eu fico mentalmente experimentando palavras para vesti-la, se alguma cai bem, escrevo uma primeira versão. Geralmente, sinto que acabei de escrever um grande poema, mas a experiência já me mostrou diversas vezes que a empolgação narcísica não é uma boa consultora para esse tipo de julgamento.

Então, guardo o poema um tempo. Deixo esfriar. No intervalo, aproveito para pensar sobre o que quero dizer, como vou dizer e por aí vai. Quando a empolgação passa, às vezes, depois de uns minutos, noutras, depois de dias, eu volto ao poema, já munido de ideias mais claras, e o reviso, pelo menos, umas 4 ou 5 vezes. Tem vez que mais. Depende.

Como era nesse ponto que o meu amigo queria chegar, ele interrompeu minha minipalestra improvisada e indagou: Mas isso não estraga o melhor da poesia? Nesse momento, eu olhei bem no fundo dos seus olhos, ajeitei a postura, aqueci a garganta e declamei:

O segredo é tirar a poesia da vida sem tirar a vida da poesia, José Danilo Rangel.





                                        
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sexta-feira, 1 de maio de 2015

O Caso da Repartição



Quando os dois foram transferidos para o mesmo setor, descobriram rápido que tinham gostos musicais diversos, visões existenciais distantes, posições religiosas dessemelhantes e até nas menores coisas discordavam. Um gostava de café, o outro não. Se no decorrer da interação percebiam mais e mais distinções entre si, motivos para a distância, nesses primeiros momentos, não percebiam nadica de nada em comum, a não ser a promissora antipatia de um pelo outro.

Assim, o cotidiano no trabalho ia se desenrolando sobre o pano de fundo de seus debates e eles iniciavam muitos e por muitos motivos. Sempre havia algo, uma notícia, uma ideia, uma fofoca, um ensejo que fosse para que os dois entrassem num novo desacordo e um tentasse demonstrar ao outro a burrice do que defendia e, em contrapartida, a genialidade e exatidão dos próprios argumentos.

Funcionaram assim, por uns dias, debatendo e debatendo, às vezes, como os ânimos muito exaltados, mas naquele dia, a mágica aconteceu. Um deles comentou sobre a ousadia dos "gays" em quererem se casar na igreja. Pela primeira vez, o outro não levantou uma opinião contrária, na verdade, não só concordou, como complementou o comentário com o seu próprio.

Foi por aí que os dois largaram as diferenças, perdoaram-se mutuamente pelos defeitos e idiotices e se deram as mãos para caminharem juntos. Tem dessas pela vida afora, pessoas que não se aproximam pelo que gostam, mas pelo que odeiam, caso daqueles dois que tinham esse grande ódio em comum: "gays".

Isso começou pela manhã, logo cedo, e ainda à tarde eles ainda estavam concordando e buscando argumentos para fortalecer a ideia de que os "gays" queriam dominar o mundo e alguém tinha que fazer algo a respeito. Foi lindo. Tirando o fato de estarem se entendendo por um motivo tão questionável, os dois realmente se aproximaram e de modo tão íntimo e com tamanha cumplicidade que duvido muito que seja fácil encontrar namorados com a mesma capacidade de entrega e confiança.

No outro dia, um deles estava andando pelos corredores, perguntando a quem encontrasse pelo caminho: você prefere ter um filho traficante ou "gay"? E ele sempre carregava nessa última palavra. Quando alguém escolhia a segunda opção, ele zombava e dizia que o mundo estava mesmo perdido. Isso quando não afirmava que a pessoa era "gay". Para ele era simples, a pessoa que defendia os "gays" tinha que ser "gay" também. Ele não conseguia conceber que uma pessoa não "gay" defendesse um "gay". Não se sabe onde ele aprendeu a pensar assim.

Como trabalhávamos em sala conjugadas, embora em setores diferentes, é claro que esse cara não podia ficar sem fazer a pergunta pra mim. Tanto que fez. Respondi que preferia ter um filho saudável, de bem e feliz. Ele completou: o "gay"! A partir daí, ficou me enchendo o saco todo santo dia, dizendo que eu era "gay" pra todo mundo que visitasse o setor. Já que eu os defendia, tinha que ser. Eu só ria, a gente não deve contrariar os doidos.

De qualquer modo, foi com especial alegria que testemunhei o desatar dos estreitos, apertados e coloridos laços que uniam os dois. Não sei como, não lembro direito, mas o cara da pergunta acabou entregando que gostava de novela. Não era tão simples assim. Ele chegava em casa, fazia uma sobremesa e depois, ia pra frente da tv com sua sobremesa assistir novela. Quando o outro ouviu isso, retorceu a cara de tal maneira que acho que se pegasse a própria mulher num bacanal não retorceria tanto.

Este outro ouviu a frase - bomba atômica para a amizade, retorceu a cara e de imediato, apontou o dedo para o já ex-grande amigo e disse: SEU "GAY"!!! O da pergunta tentou se explicar, disse que novela era algo cultural, nada a ver, não era porque ele gostava de novela que era "gay", todo mundo gosta de novela. Que mal tem gostar de novela?

Mas era tarde demais.




                                      
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sábado, 7 de fevereiro de 2015

E Se Não For?








Ontem liguei pro pessoal da internet. A milésima vez, nesses últimos sete dias. Depois de oscilações de velocidade, problemas pra conectar e frequentes falhas de conexão, agora a internet, simplesmente, não funciona. E por um bom tempo, horas, às vezes pela manhã, às vezes pela tarde e às vezes pela noite.

Acho que eles vão piorando de pouco em pouco, pra gente ir se acostumando, como aquela história do sapo cozido. Não sei que sádico pôs um sapo numa panela e esperou ferver, mas é assim que eles fazem. Uma falhazinha aqui, uma meia horinha sem sinal, e aí, vai aumentando, aumentando, quando vemos, param de vez o serviço, como se ninguém fosse perceber…

Às vezes, penso que há uma grande conspiração, um acordo secreto entre todas as empresas, de internet, transporte, água, luz e por aí vai: todas devem não prestar. Assim, deliberadamente. Se alguma delas oferecesse um ótimo serviço (pelo menos, um bom serviço), talvez a gente se sentisse insatisfeito com todas as outras e começasse a exigir o padrão daquela que nos atendeu bem a todas as outras.

Você vai no banco e não sai de lá com menos de duas horas de espera. Vai na loja, porque comprou uma cama e recebeu outra, e tem que falar com todos os funcionários antes de descobrir que não vai ser fácil. A conta de energia vem errado e se você não mandar um ofício pra Onu, ninguém sabe o que fazer. E isso, cotidianamente. Não há quem não aprenda que o mundo é assim mesmo. 

Até o mais esperançoso não tem esperanças, quando o assunto é esse. Faça o teste você mesmo. Encontre alguém cheio de sonhos, um daqueles otimistas que acreditam que um dia tudo vai ser melhor. Pergunte a ele sobre o que acha do atendimento dos bancos, das secretarias, das lojas, das empresas de telefonia. Vai ver como ele fica pessimista na hora e começa a reclamar como um reclamão.

Pode ser mais simples, talvez as empresas não tenham os clientes que merecem. Elas fazem o que fazem porque sabem que tudo acaba em nada. A gente perde tempo, a paciência, a hora do almoço, a manhã no trabalho, perde dinheiro, fica puto, pensa em processar, mas só de imaginar falar com um advogado, ir no Procon ou recorrer a qualquer outra coisa, que vai tão ou até mais burocrática quanto o problema, não há quem não desista. 

Isso quando a vontade de fazer algo não é de imediato sufocada pela ideia incutida em nossas mentes por anos e anos de maltratos, negligência e desdém, a ideia de que não vai dar em nada. E é por ter esse pensamento impregnando os nossos cérebros, assim como nossas impressões do que vai acontecer se fizermos algo, que achamos altamente vexatório aquela mulher fazendo escândalo, gritando com todo mundo e exigindo seja lá o que for. Mulher ou homem. Já vi homens perdendo a cabeça e gritando com gerentes, funcionários, smartphones e por aí vai.

Uma semana passando raiva, ligando pra empresa e ouvindo a gravação "senhor cliente, há uma interrupção do sinal de internet em sua região, nossa equipe técnica já está no local, a previsão de retorno é de duas horas". Se essa tal de equipe técnica realmente estava por aqui todas as vezes que disseram que estava, então, ela se mudou pra cá. Era hora de falar com alguém. Redisquei o número, ouvi de novo a gravação e solicitei falar com um dos atendentes.

A atendente era mais artificial que a gravação, quem fez a gravação pelo menos tentou passar aquele bom humor oficial dos SACs, a atentende não. Depois de confirmar o e-mail e o número do telefone, perguntou no que podia ajudar, explico o problema, ela me manda desligar e religar o modem, me sinto um pouco ofendido, mas passa logo, deve ser procedimento padrão, eu digo que não vai adiantar, não tem sinal, está desconectado.

Sabe como é o treinamento dessas atendentes? Não é um treinamento, é uma cirurgia. Uma cirurgia para substituir tudo o que for orgânico por placas de circuito e pequenas engrenagens de metal e plástico. É por isso que até a gravação parece mais pessoa do que algumas atendentes.

Eu já falei com muitas outras atendentes e “atendentos” e nelas e neles era perceptível algum resquício de humanidade, mas aquela atendente devia ser o modelo das atendentes, funcionária do mês, do ano, do século. A voz dela não expressava nenhuma emoção, não variava, nem mesmo amargura ou tédio ou arrogância apresentava, nem despeito, nem nada, isso me impressionou. Ela devia ter um sintetizador no lugar das cordas vocais.

É algo a se pensar: enquanto alguns cientistas dedicam anos de suas vidas para fazer com que as máquinas simulem comportamento humano, o pessoal que treina atendentes, procuram exatamente pelo contrário: fazer com que pessoas simulem o comportamento de máquinas. Nem sempre dá certo, num e noutro caso. As máquinas continuam parecendo máquinas e as pessoas adoecem, mas com essa atendente, em especial, eles conseguiram. A não ser que ela fosse um robô, aí seria realmente interessante, porque eu estava convencido de que era uma pessoa.

Ela disse que seria necessária uma visita técnica. Visita técnica é o nome que se dá quando uns caras vêm na sua casa dizer na sua cara que a empresa pra quem ele trabalha não tem culpa de nada, a culpa é sua. Eles devem ganhar bem pra fazer isso. Sábado de manhã, era o dia disponível, aceitei. O que piora um pouco as coisas, já que você tem que acordar cedo e ficar esperando até o meio dia, que é quando eles vêm. Mas se você acorda às 11 e 30, a empresa diz que os técnicos foram, mas ninguém atendeu. Diz, mas só diz quando você liga pra reclamar de novo, porque se não ligar, ela não está nem aí, afinal, o problema é seu. 

Será cobrada a taxa de 50 reais caso o problema seja no seu computador, senhor - ela disse. Viu como é? Eles oferecem um serviço horrível e quando você exige que façam algo a respeito, tentam virar o jogo. Aproveitei a deixa: E se não for, vocês vão me pagar quanto? Ela deu uma bufada, uma pequena e contida bufada. Sabe? Uma daquelas que alguém dá quando está aborrecido ou entediado, ou tentando controlar a raiva tirando o ar dos pulmões. Eu estava falando com uma pessoa. Ou isso ou a simulação robótica chegou num nível tão absurdo que agora robôs se irritavam e demonstravam isso.

- Mais alguma coisa, senhor?
- Não. Valeu, aí.
- A empresa agradece o contato - ela disse, e em seguida deu o boa noite mais falso que eu já ouvi na vida. Pelo menos não tinha mais dúvida, era uma pessoa. A não ser é claro, que agora eles estivessem simulando cretinagem também, o que não é impossível.
- Boa noite. Felicidades - eu disse, com a esperança de que a pessoa entendesse ou que o robô tivesse um detector de ironia.



                                         
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sábado, 20 de dezembro de 2014

Recesso










O alarme tocou: 6 e 30 da manhã. Ele acordou com o susto de sempre, com o cansaço de sempre, e a primeira coisa que lhe ocorreu: seria mais um daqueles longos dias de trabalho. Abriu os olhos, tateou o colchão em busca do celular. Não encontrou. O celular estava em cima da mesa do computador. Levantou muito arrependido de o ter deixado lá.

Às vezes, antes de dormir, deixava o celular um pouco longe, na mesa do computador, na estante, no chão, para se obrigar a levantar na hora em que acordasse e ir pegá-lo. A ideia era levantar e ficar de pé pra já começar o dia, mas ele sempre se levantava, pegava o aparelho e voltava pra cama, ignorando o plano da noite anterior.

Levantou, pegou o celular. Deslizou o dedo sobre a tela acionando o soneca, mais 5 minutos, e se jogou de volta na cama. 5 minuto depois, novo susto, 6 e 35. Mais 5 minutos. Fechou os olhos, o alarme tocou de novo. A esperança era que esses 5 minutos de alguma forma compensassem a noite mal dormida. Nunca aconteceu, mas nem por isso ele deixava de tentar.

Mais 5 minutos. Desistiu. Levantou. Estava zonzo de sono, mas levantou. Na noite seguinte ia tentar dormir mais cedo. Não ia conseguir, mas passaria o dia todo com essa resolução na cabeça. Foi pro banheiro, escovou os dentes. O corpo pedia outras horas de sono. Não teria. Tirou o calção, abriu o chuveiro, e ficou olhando a água cair, devia estar gelada. Pôs a mão, estava gelada. Sempre estava gelada, mas ele sempre testava antes.

Quando já ia pra debaixo da água, lamentando a falta de um chuveiro elétrico, o dia em que nasceu, os anos seguintes, o trabalho, a atual estrutura econômica mundial, a inutilidade de todo aquele sofrimento cotidiano e estúpido, lembrou de uma coisa e, subitamente, essa lembrança percorreu todo o seu corpo como o efeito ao mesmo tempo relaxante e revigorante de uma boa dose de vodka - estava de folga.

Naquela sexta não ia trabalhar, era o início do recesso de fim de ano. Agradeceu primeiramente a Deus, então Jesus, Maria e José, e se sentiu meio idiota por pensar que ainda era quinta. Não era quinta, era sexta, pensou, e o melhor, sexta - começo de recesso de natal. Era folga, folga moleque doido. Voltou pra cama. Que desligado que era, pensando que era quinta sendo que era sexta. Era sexta. Ia dormir. Rá!

Não conseguiu dormir. Muito calor. O ventilador fazia muito barulho, mas ventilar que era bom, não. Pensou um pouco na questão, de noite, era aquele calor desgraçado, de manhã, aquela água fria de trincar os dentes. Precisava esfriar o ar e esquentar a água, um ar condicionado e um chuveiro elétrico. Só assim a vida seria menos insuportável.

Tentou com vontade, insistiu, saiu da cama pro chão, nada, o calor continuava. Budejou qualquer coisa contra o inteligente que tinha feito o quarto com a janela voltada pra onde o sol nascia, desgraçado. Levantou de novo, arrasado, cansado, com sono e calor, mas como não tinha outro jeito, começou a planejar o dia.

Era estranho, sempre eram estranhos os dias de folga extra como aquele, porque tinha todo o tempo que não teria se fosse trabalhar, mas era tempo demais. Queria ficar sem fazer nada ao mesmo tempo que se sentia mal por fazer nada. Queria descansar, mas não conseguia, queria se distrair um pouco, mas quando se distraía sentia que não descansou.

Tinha o dia de folga, estava reclamando de barriga cheia. O que ia fazer? Visitar um amigo? Um parente? Começar a caminhar? Jogar video game? Terminar o livro que tinha começado a ler há uns meses? Capinar o quintal? Não sabia, queria aproveitar, queria descansar, queria tudo. E de repente o dia pela frente pareceu curto demais para o que queria fazer. Decidiu jogar videogame.

Quando começou a jogar, umas 10 e 30 da manhã, o celular tocou. Era do trabalho. Na sexta uns iam trabalhar ainda e eram eles que estavam ligando. Pra quê? Pensou no que poderia ter esquecido, no que poderia ser, mas não teve ideia. Não atendeu, então o celular tocou de novo. Devia ser importante, atendeu.

- Alô

- E aí, rapaz, não veio trabalhar hoje por quê? Aconteceu alguma coisa

- Hoje é sexta, primeiro dia do meu recesso.

- Hoje é QUINTA!





                                                          
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sábado, 13 de dezembro de 2014

Depende do Referencial







Acontece num dia qualquer e é exatamente na falta de qualquer outro, que se torna o acontecimento do dia. As pessoas estão fazendo o que habitualmente fazem, na faculdade, no trabalho, em casa ou seja lá onde for, então, acontece. Chega um cara com qualquer coisa embrulhada em metros de papel celofane colorido e entrega pra uma mulher.

Ele fala foi fulano que mandou, acrescentando uma breguice qualquer. A destinatária se derrete toda. Ela fica numa alegria, toda ela é só alegria, não sei dizer se (opção a) por receber o que acabou de receber ou se (opção b) por antever o prazer de mostrar para as amigas o que acabou de receber. Talvez seja um pouco dos dois.

Geralmente é uma caixa de bombons ou um punhado de flores, uma cesta café, um ursinho de pelúcia, às vezes é tudo isso junto ou uma combinação de um com outro, o problema não é o que é, mas o que representa.

Uma prova de amor? Sim, pelo menos para as mulheres, pra quem quase tudo que um namorado compre e dê é prova de amor. Uma garrafa de vodka barata? É! Uma caixa de grampos? É! Na verdade, quase tudo pode ser considerado uma prova de amor, depende do embrulho.

Mas se para as mulheres aquela surpresa é uma prova de amor, de fofura e tudo mais, para os homens, é um precedente, prenúncio de uma semana com os ouvidos cheios.

Todos os maridos, noivos e namorados, em especial os de muito tempo, são alvos de cobranças do tipo você mudou desde que começamos a namorar, você não me dá atenção como me dava antes, ou ainda, você não me ama mais como antigamente. Mas eles conseguem lidar com a situação, porque as mulheres não têm mais que uma abstração com que os comparar, ou seja, os seus eus passados.

Quando uma mulher diz você não me ama mais como antigamente nem ela sabe direito do que está falando, porque talvez nem lembre do cara de antigamente. Agora, quando um cara, seja lá porque motivo, aniversário, desculpa, páscoa etc, presenteia publicamente uma mulher e ela gosta (teoricamente, não tem como ela não gostar), então pronto, elas têm aí tudo o que precisam para azucrinar seus parceiros, pra fazer cobranças: um exemplo concreto e atual.

No mundo além das muitas ideias, há dessas leituras prontas, onde um determinado fato significa necessariamente algo e fora isso, nada. Surpreender a mulher, a noiva ou a namorada com uma caixa de chocolate, flores ou pelúcia é um exemplo, porque sempre significa uma prova de amor.

Não importa o motivo, não importa o preço do que foi mandado, chegou de surpresa, esteve num embrulho chamativo e logo é erguido ao posto de demonstração maior de afeto e quem o enviou é de imediato considerado um fofo, um lindo, um meigo, não importando como trate sua companheira - mandou algo, pronto, é um fofo.

Lá está a mulher hipotética fazendo seus afazeres hipotéticos quando, hipoteticamente falando, chega um entregador com um embrulho bufante, colorido, cheio de papel celofane e fitas de cores sortidas, tudo hipotético. As amigas hipotéticas se aproximam para curiar e logo começam a amontoar elogios sobre o marido ou noivo ou namorado da mulher hipotética.

A não ser que caia um meteoro nas redondezas, ou o preço da gasolina seja reajustado de novo, aquele será o assunto do dia.

Então, essas mulheres hipotéticas vão pra casa e a primeira coisa que vão dizer aos seus homens hipotéticos é fulano mandou uma cesta café pra beltrana, tão bonito, lembro do tempo que você se importava comigo, que me amava, agora não tá nem aí. Duas horas depois e ela ainda vai estar falando sobre o assunto. Dias depois e ela ainda vai dizer uma frasinha ou outra sobre um assunto.

Acredito que existem muitos motivos para surpreender a mulher com presentes, em todo caso, não desacredito que alguns homens presenteiam as suas mulheres já com a intenção de, como dizem por aí, botar em maus lençóis os amigos.

Se você é homem sabe do que estou falando. Então, vou dizer como sair dessa. Primeiro, você pode tentar rogar à razão, tentando, através de alguns giros argumentativos profundos e bem fundamentados convencer a sua mulher de que ela está exagerando: uma cesta café não é uma prova de afeto tão grande assim. Já tentou? Não deu certo, né?

Então, aí vai um método infalível. Quando a sua mulher chegar em casa reclamando porque você não é igual ao fulano de tal, encontre um amigo bem escroto e diga, pelo menos não sou fulano. E termine com você pode me achar muito ruim se me comparar com alguns desses reis do romantismo, mas se me comparar com alguns outros, vai me achar o melhor homem do mundo, depende do referencial.



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sábado, 29 de novembro de 2014

Fim de Semestre











Se você quiser saber do que é realmente capaz um acadêmico, então, o acompanhe ao longo das duas ou três últimas e angustiantes semanas do semestre. Antes disso, pela faculdade afora, impera o mais descontraído e despreocupado clima. Na hora do intervalo, os alunos conversam sobre tudo e nada, uma festa aqui, uma festa ali, um jogo, um filme, uma notícia curiosa vista na internet. Muitos deles estão vendo vídeos no celular, compartilhando fotos, enfim, se ocupando das mais variadas tarefas exceto aquelas que tem a ver com a faculdade. Dentro das salas, não é muito diferente.

Você anda pela faculdade e em todos os rostos vê a mesma expressão suave de alegria e contentamento, e é claro que você se deixa contaminar e vive na mais total tranquilidade, como não houvesse provas, relatórios, testes, e tudo mais. Todos estão bonitos e faceiros, as mulheres têm os cabelos bem penteados e as caras cheias de maquiagem, os homens também estão alinhados e de repente, você se sente de volta ao Ensino Médio. Todos os assuntos são abordados exceto qualquer um que tenha a ver com as disciplinas estudadas e o corpo discente, desligados dos temas estudados, se mistura como fosse um só.

Por esses dias sossegados, a situação só é difícil para quem é aplicado. Ninguém está nem aí pra eles. Os demais alunos se reúnem e falam dos CDFs, eles estudam muito e não curtem nada, a vida é muito mais que faculdade. E esses pobres e esforçados CDFs que nunca têm tempo para ir num churrasco porque aproveitam o tempo livre para (acredite se quiser) estudar, que andam sempre preocupados com apostilas e livros, que sabem de cor todas as matérias que estão cursando, os horários e as salas, que realmente prestam atenção no que os professores estão falando são considerados uns bestas sem vida, a classe mais sem valor do lugar, abaixo até dos esquisitões e das chatas.

Já ouvi alguém dizer pra um deles, cara, assim tu nunca vai pegar ninguém… O argumento está mais do que correto, ou será que você conhece alguém que conseguiu ser o pegador lendo muitos livros e tirando notas boas? Eu pelo menos já vi caras serem populares por serem engraçados, por terem braços da grossura de coxas, por tocarem duas músicas no violão, por andar de skate, por se vestirem como idiotas. E acredito que seja parecido com as mulheres inteligentes.

Seja como for, a maioria do tempo eles estão sendo ignorados e a faculdade é mais um lugar para interação social que para qualquer outra coisa, contatos são feitos, encontros, churrascos e outros eventos sociais são marcados. As pessoas estão ali para ver outras pessoas e serem vistas por elas, para ficar sabendo o que tá rolando, pra ficar por dentro, pra fazer uma pose e por aí vai. Na hora do intervalo, que geralmente dura 20 minutos a mais que os 10 sugeridos pelo professor o que se vê não é muito diferente de uma praça, gente pra lá e pra cá, falando alto e comendo. 

Mas então, chega o fim de semestre e tudo muda. É como anunciassem o impacto de um cometa sobre a Terra, a vinda de Jesus, o Bug do Milênio, a volta do É o Tchan. A atmosfera calma de descontração é logo substituída por outra, mais densa, séria, tensa, acadêmica, regulamentada pela ABNT. Os passos se tornam mais rápidos, as trocas de cortesias perdem a prioridade, tornam-se ligeiras e quase que mecânicas. Todos os cumprimentos usuais perdem o lugar para um e aí apressado e desarticulado. Por toda a parte tem alguém lendo uma apostila um livro ou um pdf. 

Os professores recebem muito mais atenção do que podem suportar e é claro que tiram seu proveito da situação. É o momento da sua vingança. O pessoal conhecido por chegar fora da hora, começa a chegar mais cedo e em vez de mexer no celular não tiram os olhos e os ouvidos de cima do professor. Há quem chore, há quem esqueça de pentear os cabelos, barbas por fazer e olheiras são comuns.

A xerox e a biblioteca se entopem e esse é o momento dos CDFs. Todo mundo quer falar com eles, quer saber deles, admiram sua dedicação e inteligência, querem adicioná-los no Facebook, no Instagram, no G+, no Whatsapp e em não sei mais o quê. Amizades desfeitas são refeitas, ofensas são retiradas e a paz prevalece. Alguns deles, sabendo como é e muito entendidos do que quer dizer a lei da oferta e da procura, fazem doce, se fazem de difíceis, a maioria entanto, deslumbrados, prostituem os conhecimentos adquiridos a duras penas por qualquer pedacinho de atenção.

Eu sei conheço os dois lados da história. Sou o que se pode chamar de aluno dedicado, leio na hora do almoço, não assumo compromissos no fim de semana pra poder estudar, presto atenção nas aulas e geralmente sei a matéria passada. Noutras vezes, estou muito nem aí, me perco na semana, não sei nem em que sala vai ser a aula ou que aula vai ser. O resultado disso é que de, vez em quando, perto do fim do semestre, há quem me procure como eu fosse uma agenda humana, querem saber datas de prova, de entrega de trabalhos, mais que isso, querem saber da matéria, querem ajuda, querem que eu explique e, eu no mesmo barco, digo: também tô querendo saber e rio. E aí, alguns agem como fosse minha obrigação saber de tudo e como não sei, ficam com raiva.

O tempo passa, as provas passam, trabalhos são terminados em cima da hora e entregues no último segundo, quando o professor já está saindo da sala, as notas são divulgadas e no fim, as férias brilham para todos, pra quem passou e pra quem não passou. E no semestre seguinte todos os que prometeram a si mesmos fazer diferente, que prestaria atenção, fariam os trabalhos, estudariam antecipadamente, fazem do mesmo jeito, como se tivessem escrito num roteiro, então, tudo de novo. E é assim que uma hora a gente acaba se formando.


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Fogão Wifi





            Eu ia escrever uma crônica sobre fogões hightechs, ia dar uma dica às grandes empresas. Cheguei em casa e quando fui jantar vi que a carne, o feijão e o arroz estavam queimados, então, vendo minha mãe sempre no computador, tive a ideia, não seria realmente estupendo um fogão inteligente?

            Eu ia dizer que as grandes empresas de eletrodomésticos se gabam por produzirem fogões com mais de 1 milhão de combinação de cores, mas até agora não desenvolveram nenhum que avisasse que a comida está pronta. Muito mais útil que um fogão colorido, seria um que apitasse, que de preferência fizesse o barulhinho do facebook sempre que a comida estivesse pronta.

            Ia dizer que, aliás, esse sim seria um produto atual, já que ajudaria às donas de casa de hoje em dia, que em vez de ficarem olhando as panelas no fogo estão vendo atualizações das redes sociais, gerenciando suas fazendinhas ou jogando Candy Crush, mas não vou adiante, já que este maldito fogão existe! Tive a ideia de pesquisar no Google e descobri que já produzem fogões assim, que enviam notificações para smarthphones! Dá pra acreditar? Esses desgraçados estão mesmo pensando em tudo.

            Caramba! Que raiva! Talvez você não saiba, mas é muito frustrante pensar que teve uma ideia ótima para fazer uma graça e ficar sabendo que ela está atrasada. O nome disso é coincidência criativa, mas eu gosto de chamar de coincidência chata pracarai. Mais que isso, a existência de um fogão assim elimina a possibilidade do conceito de um fogão assim servir para fazer brincadeiras.

            Pois só de mal me peguei aqui com meus neurônios e imaginei outras duas façanhas tecnológicas. Primeiro, um sistema pra armários para avisar o que tem e o que está precisando. É algo simples, você cadastra as compras pelo código de barra e conforme for tirando, uma interface colorida e amigável de um aplicativo do seu smarthphone alerta o que está faltando e manda você as compras. O segundo é uma máquina de lavar com um programa de previsão meteorológica. Assim, antes de lavar a roupa, você já fica sabendo se vai chover ou não. Então, não precisa contar com a sorte ou a intuição.

            Tem mais uma coisa. Se estão produzindo em larga escala fogões que fazem isso é porque as grandes empresas, em suas intermináveis pesquisas, detectaram a necessidade de um fogão com Wifi mandando notificações para smarthphones. Entendem? Isso quer dizer que milhares, senão milhões, de donas de casa estão agora mesmo deixando a comida queimar ou passar do ponto porque estão entretidas demais na frente de um computador.

            Vou ser mais claro: a internet está se tornando um sistema fechado ao mesmo tempo que está gerando novos problemas para os nossos cotidianos gera soluções e cada vez mais vamos ficando conectados, dependentes, parasitários. Onde esse mundo vai parar?




domingo, 7 de setembro de 2014

É isso, aí, Bukowski




Eu sei escrever poesia difícil, que ninguém com menos leitura que eu e menos habituado com recursos e técnicas é capaz de entender, e de vez em quando, ainda escrevo assim, pelo prazer de construir algo complexo.

Mas, no mais das vezes, me sento aqui e escrevo como falo, escrevo como aquela letra do Jota Quest, fácil, extremamente fácil, pra você e eu e todo mundo cantar junto, porque acredito que se a arte tem alguma função é essa: falar algo. E mesmo que tirem o título de arte dos meus trabalhos, se eles falam, então, tudo bem, que um liquidificador pode ser chamado de qualquer outra coisa, ninguém vai ligar se dá pra fazer vitaminas com ele.

Essa minha postura vem de muito tempo atrás, baseada no alcançar o outro, em lhe falar, antes apenas se manifestando na minha mania de sair por aí com um monte de papéis manuscritos, obrigando as pessoas a lerem, mas foi evoluindo, tomando forma, pouco a pouco, até se consolidar.

Depois de ver como a arte é tratada por aqui, decidi que não era pra mim. O que se escreve chega a ser irrelevante e um poeta ou escritor é avaliado por critérios que muitas vezes não têm nada a ver com o material que o cara produz, mas com o modo como ele se comporta, com quem anda, e por aí vai. Ao ponto de muitas pessoas se dizerem fãzaças desse ou daquele autor sem nem saber o que ele escreve.

De outro modo, admiram esse ou aquele autor exatamente por não o entenderem, por adivinharem a complexidade do que ele escreve, sem nunca, entanto, chegar a lhe decifrar os ditos. Também não quero isso pra mim.

Depois que li do Bukowski que um artista é alguém que fala de coisas difíceis de uma forma simples, achei a fórmula que estava procurando e passei a levar a sério, me desfiz do prestígio de poeta, do prestígio de escrever poesia e comecei a não esquentar com muita coisa, senão falar.

Então, está acontecendo, com a ajuda de uns amigos, que me dão espaço, que compartilham o que escrevo, que de um modo ou de outro me dão algum apoio, começo a falar, começo a ser lido, a causar reflexões, misturadas a risos, isso basta.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Você Tá Fazendo Errado






Tem gente irritante e gente com hábitos irritantes, acontece que nem sempre é fácil separar o primeiro do segundo grupo. E isso se dá, porque é muito fácil que pessoas com hábitos irritantes sejam erroneamente categorizadas como pessoas irritantes, mas não são. Uma pessoa irritante dá a impressão de estar a todo momento comprometida com sua missão na Terra, nos tirar do sério, enquanto uma pessoa com hábitos irritantes, às vezes, com um hábito irritante, é uma pessoa muitas vezes até legal, exceto quando começa a nos irritar.

Existe um tipo de pessoa com o hábito de nos corrigir, ela sempre tenta nos convencer de que estamos fazendo algo errado. Lá está ela, conversando normalmente sobre algum assunto trivial, política, a vida do vizinho, da vizinha, filosofia, preço do feijão, tempo da escola e POW! Ela começa:

- Sabia que você respira errado?

- Até agora tem dado certo, mas obrigado por reparar. - você responde.

- É, mas tá errado - ela insiste e então, repete a palestra que viu no Youtube sobre como todos nós respiramos errado.

E você pensa: e daí?

Não sei desde quando esse negócio de alimentação saudável entrou na moda, faz um tempo já, mas por agora, parece que está de novo muito forte. Você não pode pedir uma Coca e um quibe na lanchonete da faculdade que sempre tem alguém para perguntar: você vai comer isso? É, claro que vai. Então, ela começa a falar sobre como dá para usar refrigerante (em específico Coca-Cola), pra limpar motores de carro. Você diz, valeu, quando tiver um carro, vou usar. Mas ela insiste.

Até seria legal se os sábios vigilantes do erro alheio pudessem ajudar, nos orientando em questões mais relevantes, como por exemplo, comprar uma moto. Eu não sabia como comprar uma moto, acabei passando umas raivas feias por causa disso. Um dia desses, estava tentando conectar dois computadores na minha internet e, garanto, desejei do fundo do meu coração que alguém chegasse e dissesse, ei, você está fazendo isso errado. Mas ninguém apareceu.

Na verdade, seria muito interessante se uma pessoa dessas aparecesse bem naquela hora que você está todo sem jeito, sem saber como é que faz algo. E não só dissesse que está errado, fosse além, mostrasse o certo. Eu, pelo menos, seria eternamente grato. Mas não, elas querem ensinar a comer e a respirar direito, às vezes, dão ótimos conselhos de como manter a coluna ereta, como comprar plásticos no 1,99 ou manter o controle remoto inteiro. Para todo o resto, você está por conta própria.

sábado, 30 de agosto de 2014

É Dialético




Eu participo de vez em quando de alguns papos complexos, desses que acontecem em mesas de bar, na lanchonete da faculdade, do lado de fora das festas de Rock, pelos corredores do trabalho, pelas paradas de ônibus e lugares equivalentes, e por isso, acabei reparando que tem gente que não sabe o que dizer em conversas com temas elevados.

Elas ficam lá, querendo ir embora, tentando mudar de assunto, perdidas, zonzas como quem vai a primeira vez ao shopping e é atacado por aquela porrada de produtos em promoção. Não gosto de ver ninguém assim, por isso, vou repassar um segredo que aprendi faz um tempo já.

Se você é daqueles que apenas fica acompanhando os argumentos olhando para um e outro falante como quem acompanha uma partida de tênis, apenas balançando a cabeça nem pra cima e pra baixo, como quem diz sim, nem prum lado e pro outro, como quem diz não, mas de um modo confuso, circular, irregular, como quem diz talvez, pode ser ou mais ou menos, se em vez de brilhar, você passa vexame sempre que seus amigos inventam de falar de coisas sérias, acontece que eu tenho a solução.

É claro que se eu fosse ingênuo e pensasse que a intenção é ter conteúdo para mostrar, para lidar melhor com o mundo, a gente nele e consigo mesmo, não sendo menos que um interesse franco pelo conhecimento, seus começos, meios e fins, diria pra você começar a ler mais livros, ver menos TV, procurar mais sites inteligentes na internet, assim como iria sugerir o uso não apenas recreativo do cérebro.

Contudo, eu sei das coisas. Sei por exemplo que a maioria de nós não quer exatamente saber de nada, quer só se sair bem quando os próprios amigos começam com chatices. Tudo bem, assim é o mundo, ou se acostume ou se mude.

Você é um cara normal que procura um meio fácil de pelo menos não passar mais aquela vergonha de quando os amigos começam a falar sobre política, economia, filosofia, literatura, música, filmes e por aí vai, pois a você, meu amigo eu revelo o segredo, você não precisa ler nada, buscar nada, nem pensar em nada, basta que coce o queixo como quem tá escolhendo o que comer baseado numa estimativa do que tem no bolso e dizer:

- É Dialético.

Funciona pra tudo. Estão falando sobre desemprego? É dialético. Falam sobre políticas internacionais? Crises no Oriente Médio? Terrorismo? A Praça é Nossa? É dialético. Não tenha dúvida, vai na fé e diga: É dialético.

Um tempo atrás você podia dizer é relativo, bastava fazer uma cara de intelectual pra acompanhar e você se safava, mas esses, infelizmente, são outros tempos e vai ter gente uma gente chata perguntando como assim? E então, meu amigo, se você não souber como ir daí para frente, vai estar enrolado.

Diga é dialético e pronto, todo mundo ao redor só vai saber muito por alto o que significa essa palavra, daí que vão concordar com você e mudar de assunto e você vai acabar sendo conhecido pelas frases rápidas e sucintas, por ser curto e grosso. Vai ser legal.

Tem só uma coisinha mais: você corre sempre o risco de ter alguém por ali perto que saiba o que é esse negócio de Dialética, mas não tema, mantenha a calma e diga, piscando um olho, nós lemos ou não lemos Marx?. Se ainda assim, insistirem, então fale bem alto: eu não falo com petista. Pronto.


sábado, 16 de agosto de 2014

Sorria e Acene



Eu venho de uma família muito pobre, tão pobre que não tinha nem com o que sustentar tradições. Assim coisas como Natal, Ano Novo, aniversário, festas juninas e todo o resto, me dizem muito pouco, quase nada. Mas nem por isso, ando por aí levantando bandeira a favor da abolição das datas comemorativas ou chamando de estúpidos aqueles que se empolgam todos quando chega este ou aquele feriado, ou o dia do nascimento, seu ou de um amigo, de um familiar. Um dia, o pessoal do meu setor organizou uma festa surpresa para o meu aniversário. Fiquei desconcertado de tão feliz, quase chorei. Noutra vez, minha mulher e meu melhor amigo organizaram uma saída surpresa. Então, eu sei como são importantes esses eventos.

Eu até gosto. Geralmente, as pessoas estão todas descontraídas e então, meu senso de humor não parece algo inadequado à hora ou ao lugar. Coisa de duas ou três semanas atrás, fui numa festa junina que, ao mesmo tempo, era aniversário de uma senhora. Foi engraçado que a senhorinha, na hora do seu discurso de depois dos parabéns, praticamente pediu pras netas lhe darem pelo menos um bisneto. Foi divertido, dançamos quadrilha, forró, pagode, eletro house e tudo mais, eu e minha mulher.

O problema é sempre a obrigatoriedade dessas reuniões, você tem que sorrir, tem que estar bem, faz parte do lance todo. E quando você não está, como é que faz? Você acaba se torna o chato da festa, está todo mundo brincando, bebendo, comendo, rindo à toa e você lá, procurando um canto pra ficar quieto, com fastio, sem vontade de falar ou rir. As pessoas reparam e vêm falar com você, mas você não quer consolo, amparo ou palavras de incentivo, você as conhece de cor e só quer ficar quieto.

Esses dias teve uma confraternização no trabalho, com temática de festa junina, eu não estava muito bem, um monte de contas pra pagar, aluguel, luz e internet, e o banco ainda tinha aprovisionado metade do meu 13º e outra metade do meu salário. Estava sem clima. Mas não fiquei na sala, porque sei como é, a gente diz que não vai e em pouco tempo, estão perguntando o que aconteceu. Também não ia dizer é, eu vou, já que não tem outro jeito, porque sempre tem jeito, pra fazer ou deixar de fazer algo convencional. Fui. E tem mais, às vezes, você está mal, então se deixa contagir pela alegria dos outros e fica bem, pelo menos naquele momento.

Teve um sorteio, foi engraçado até. A pessoa sorteada ia lá na frente, pagava uma prenda e ganhava uma trufa, era mais por causa da brincadeira mesmo. E de repente, eu estava lá, de braços cruzados, torcendo para o meu número não ser sorteado. Um pouco depois, já tinha a seguinte resolução: se meu número fosse chamado, eu ia fingir que não era o meu e esperar chamarem o outro número.

O meu normal é estar tranquilo e brincalhão, eu chego no trabalho e não importa se estou caindo de sono, dou bom dia para todos, começando pelas meninas da copa, que me dão o santo café de todo dia útil, mas isso é espontâneo, e só funciona quando estou sem preocupações demais. E embora, faça assim quase todos os dias, não me sinto obrigado a distribuir bom dias e tudo bem?.

Acho que fujo mesmo é da imposição de um humor, de um modo, de um estado. Por isso, não gosto que fiquem esperando que eu seja o intelectual 24 horas por dia, todos os dias do ano, assim como não gosto de ser o engraçadão em tempo integral, ou o poeta, ou o responsável. Eu sinto os dias e eles nem sempre são bons e eu nem sempre estou com vontade de falar sobre filosofia ou contar piadas, ou ficar com aquele sorriso abestado esticando os cantos da boca.